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Período Republicano

As Eleições de 1989

Publicado em 22 de junho de 2025

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As Eleições de 1989

As eleições de 1989 representam um dos capítulos mais vibrantes e decisivos da história contemporânea do Brasil. Após 29 anos sem eleições presidenciais diretas — desde a vitória de Jânio Quadros em 1960 —, o povo brasileiro voltou às urnas para escolher seu presidente em 15 de novembro de 1989 (primeiro turno) e 17 de dezembro (segundo turno). Essa consulta popular ocorreu exatamente no centenário da Proclamação da República e pouco mais de um ano após a promulgação da Constituição de 1988, a "Constituição Cidadã".

Foi o ápice de um longo processo de abertura política iniciado ainda durante o regime militar, que incluiu o fim da ditadura militar, a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 e o governo de transição de José Sarney. Para entender o impacto dessas eleições, é essencial revisitar o contexto da história do Brasil desde a independência até a era moderna, passando por momentos como o Segundo Reinado, a Primeira República e o Estado Novo.

O Contexto Histórico: Da Ditadura à Esperança Democrática

O Brasil vivia, em 1989, o final de um ciclo iniciado com o golpe de 1964. Durante a ditadura militar, presidentes como Humberto Castello Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo governaram o país em meio a repressão, mas também ao "milagre econômico" e ao posterior período de abertura política.

A transição ganhou força com a Campanha das Diretas Já, frustrada em 1984, mas que pavimentou o caminho para a eleição indireta no Colégio Eleitoral. Tancredo Neves, do PMDB, venceu, mas morreu antes da posse, deixando José Sarney no poder. Sarney conduziu o país à Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, que produziu a nova Carta Magna, restaurando direitos civis, sociais e políticos.

Essa Constituição de 1988 foi fundamental: ela estabeleceu eleições diretas para presidente, vice e outros cargos, ampliou o direito de voto e consolidou a redemocratização. Para quem quer aprofundar, vale ler mais sobre o fim do Estado Novo e o início do período democrático (1945-1964), que mostra paralelos com a instabilidade dos anos 1980, marcada por hiperinflação (que chegou a quase 1.800% ao ano em 1989), dívida externa e crises sociais.

A sociedade brasileira estava polarizada. De um lado, herdeiros das oligarquias da República do Café com Leite e da Primeira República; de outro, movimentos sociais, sindicatos e a esquerda organizada, influenciados pelas greves do ABC paulista nos anos 1970-80. O Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em 1980, e figuras como Luiz Inácio Lula da Silva emergiam como vozes do operariado, enquanto novos partidos como o PRN surgiam para canalizar insatisfações com a corrupção e a ineficiência do governo Sarney.

Os Candidatos e a Fragmentação Política no Primeiro Turno

Com 22 candidatos à presidência, as eleições de 1989 bateram o recorde de fragmentação partidária. Os principais nomes incluíam:

  • Fernando Collor de Mello (PRN – Partido da Reconstrução Nacional), jovem governador de Alagoas, que se apresentou como "caçador de marajás" — prometendo combater privilégios, corrupção e a velha política. Sua campanha moderna, com forte presença na TV, atraiu eleitores cansados da inflação e da instabilidade. Collor formou a aliança "Brasil Novo" e tinha como vice Itamar Franco.
  • Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder sindical metalúrgico de origem nordestina, que representava a "Frente Brasil Popular". Sua trajetória desde as greves do ABC simbolizava a ascensão da classe trabalhadora.
  • Leonel Brizola (PDT), herdeiro do trabalhismo getulista, forte no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
  • Mário Covas (PSDB), ex-prefeito de São Paulo e figura da oposição moderada.
  • Paulo Maluf (PDS), conservador ligado a setores da ditadura.

Outros nomes como Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves e até uma candidata mulher, Lívia Maria, marcaram presença. Essa diversidade refletia a imaturidade do sistema partidário pós-ditadura, com legendas criadas às pressas.

No primeiro turno, em 15 de novembro de 1989, Collor liderou com cerca de 30,48% dos votos (20,6 milhões), seguido por Lula com 17,19% (11,6 milhões). Brizola ficou muito próximo, com 16,51%, perdendo a vaga no segundo turno por uma diferença de apenas cerca de 454 mil votos. A participação foi expressiva: mais de 72 milhões de eleitores compareceram, em um eleitorado de cerca de 82 milhões.

Essa disputa acirrada entre Lula e Brizola no centro-esquerda destacou as divisões internas da oposição histórica ao regime militar. Para contextualizar melhor a formação dessas forças políticas, é útil lembrar o legado da Revolução de 1930, do getulismo e do movimento republicano que moldaram o Brasil moderno.

O Segundo Turno: Polarização e a Vitória de Collor

O segundo turno, em 17 de dezembro, transformou-se em um embate simbólico: o "caçador de marajás" versus o "operário". Collor intensificou o discurso anti-corrupção e liberal, enquanto Lula apostou na defesa dos direitos sociais e na crítica às elites. Debates na TV, especialmente o confronto direto entre os dois, foram marcantes e influenciaram a opinião pública.

Collor venceu com 53,03% dos votos válidos (35.090.206 votos), contra 46,97% de Lula (31.075.803 votos). A diferença foi menor do que muitos esperavam, revelando uma sociedade dividida. A campanha de Collor contou com apoio significativo de setores empresariais e da mídia, explorando o medo de mudanças radicais.

Essa vitória marcou o retorno do voto direto, mas também expôs fragilidades. O governo Collor (1990-1992) iniciou com o Plano Collor, que congelou poupanças e tentou combater a inflação, mas terminou em crise, escândalos e impeachment em 1992, com Itamar Franco assumindo. O período posterior viu a estabilização com o Plano Real sob Fernando Henrique Cardoso e os governos seguintes de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Legado das Eleições de 1989 na História Brasileira

As eleições de 1989 não foram apenas uma escolha de presidente; foram o batismo da nova democracia brasileira. Elas consolidaram a Era da Informação e Globalização no contexto nacional, influenciadas pela queda do Muro de Berlim (1989) e pelo fim da Guerra Fria.

No Brasil, o pleito destacou o poder da televisão na política — algo que se repetiria em eleições futuras. Economicamente, o país saía de décadas de intervencionismo estatal (herdado do Estado Novo e do milagre econômico) rumo a debates sobre liberalismo e neoliberalismo, que marcariam os anos 1990.

Cultural e socialmente, 1989 reforçou a importância da participação popular, dos movimentos sindicais e da imprensa livre. Figuras como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart do passado encontravam ecos nas novas lideranças. Paralelos podem ser traçados com eventos internacionais, como a Revolução Francesa, as Revoluções Americanas ou a independência da Índia, onde o povo reivindicou voz ativa.

Para quem estuda a formação da identidade brasileira, vale conectar com temas mais antigos: desde a colonização portuguesa, as capitanias hereditárias, o Brasil Holandês, a Inconfidência Mineira, a Independência, a Guerra do Paraguai, a abolição da escravatura (13 de maio de 1888) e a Proclamação da República (15 de novembro de 1889). As eleições de 1989 fecharam um ciclo iniciado com a Constituição de 1824 e a abolição, ao afirmar o sufrágio universal como pilar da nação.

Impactos de Longo Prazo e Reflexões Contemporâneas

A polarização vista em 1989 — entre "nova política" e forças populares — reapareceria em momentos como o impeachment de Collor, o Plano Real, os governos petistas, o impeachment de Dilma e as eleições de 2018. O Brasil aprendeu, com dificuldades, a conviver com alternância de poder, mas também enfrentou crises institucionais.

No campo econômico, o legado incluiu debates sobre o mercantilismo colonial versus modernização, o café como motor na República Velha, o segundo milagre brasileiro (ouro) no passado e as tentativas de estabilização nos anos 90. Socialmente, questões como direitos dos indígenas, dos escravos (e sua herança), da mulher na política e da inclusão permaneceram centrais.

A Constituição de 1988 garantiu avanços em educação, saúde e direitos trabalhistas, temas que Lula e Collor abordaram de formas distintas. Hoje, ao revisitar 1989, percebemos como a democracia é frágil e exige vigilância constante, cidadania ativa e compreensão profunda da história do Brasil.

Perguntas Frequentes sobre as Eleições de 1989

Por que as eleições de 1989 foram em dois turnos?
Porque nenhum candidato atingiu maioria absoluta no primeiro turno, conforme previsto na Constituição de 1988. Isso obrigou a disputa entre os dois mais votados.

Qual foi o papel da mídia nas eleições de 1989?
A televisão foi decisiva. Campanhas modernas, debates e horários eleitorais ajudaram Collor a construir imagem de renovação. O debate Collor x Lula ficou marcado na memória coletiva.

Como as eleições de 1989 se relacionam com a ditadura militar?
Elas simbolizaram o fim definitivo do ciclo autoritário iniciado em 1964. Após presidentes militares como Artur da Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo, o voto direto restaurou a soberania popular.

O que aconteceu após a vitória de Collor?
Seu governo enfrentou hiperinflação, implementou o Plano Collor (com confisco de poupanças) e terminou com impeachment em 1992 por corrupção, abrindo caminho para Itamar Franco e depois Fernando Henrique Cardoso.

Por que Lula ficou em segundo lugar no primeiro turno?
Disputou votos com Brizola na esquerda. A fragmentação beneficiou Collor, que capitalizou o descontentamento geral.

As eleições de 1989 influenciaram a política atual?
Sim. A polarização, o uso de mídia, o debate entre liberalismo e intervencionismo e a figura de Lula como protagonista persistem até hoje.

Um Marco que Ainda Ecoa

As eleições de 1989 não foram perfeitas — com polarização, influência da mídia e desafios econômicos —, mas representaram um triunfo da democracia. Elas permitiram que brasileiros comuns, após décadas de autoritarismo, decidissem o destino do país. Do Antigo Egito às civilizações mesoamericanas, passando pela Grécia Antiga, Roma, Revolução Industrial, Iluminismo, Revolução Francesa e Guerra Fria, a história da humanidade mostra que o exercício do voto é conquista frágil e preciosa.

No Brasil, desde as culturas indígenas, a chegada de Cabral, as bandeiras, o ciclo do açúcar, o ouro, o café, a invasão holandesa, a União Ibérica, as revoltas regenciais, a Guerra do Paraguai, a Lei Áurea, até a redemocratização, o povo construiu sua narrativa. 1989 é parte viva dessa trajetória.

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