João Figueiredo
Publicado em 13 de novembro de 2025
De ditador implacável a artífice da abertura: a trajetória contraditória de João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985)
João Figueiredo foi o 30.º presidente do Brasil e o último dos cinco generais que governaram o país durante os 21 anos da ditadura militar iniciada em 1964. Chegou ao poder com a fama de linha-dura, chefe do SNI nos anos mais violentos do regime, mas saiu dele assinando a Lei da Anistia, permitindo o pluripartidarismo e entregando a faixa presidencial a um civil eleito indiretamente — José Sarney. Foi, talvez, o mais paradoxal de todos os presidentes militares.
Neste artigo detalhado, vamos percorrer toda a sua vida, desde a infância no Rio de Janeiro até os últimos dias em reclusão quase total, passando pelo contexto da ditadura, pela abertura política lenta e gradual, pela crise económica brutal dos anos 80 e pelo seu estilo pessoal — aquele general que chorava em público, montava a cavalo na posse e dizia frases como “prefiro o cheiro dos cavalos ao do povo”.
Juventude e Formação Militar: Um Filho da República Velha
Desde a antiguidade, a humanidade olha para o céu em busca de sinais de vida além da Terra. Marte, ...
João Baptista de Oliveira Figueiredo nasceu a 15 de janeiro de 1918, no Rio de Janeiro, então capital federal. Era filho do general Euclides Figueiredo, um dos líderes da Revolução de 1930 que derrubou Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder (leia mais em Junta Governativa Provisória de 1930 e Getúlio Vargas). Cresceu, portanto, dentro do Exército e da política.
Formou-se na Escola Militar do Realengo em 1937, fez a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e especializou-se em cavalaria e inteligência. Participou da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, na Itália, como tenente. Voltou condecorado e com a convicção de que o Brasil precisava de ordem acima de tudo.
A Escalada no Regime Militar
O Regime de 1964 marcou um dos capítulos mais controversos e transformadores da história contemporâ...
- 1961-1964 — Comandante da guarda do presidente João Goulart (João Goulart)
- 1964 — Apoia o golpe militar com entusiasmo
- 1966-1969 — Chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Planalto
- 1969 — Durante a doença de Costa e Silva (Artur da Costa e Silva), integra a junta militar de 1969 (Junta Governativa Provisória de 1969)
- 1974-1978 — Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) no governo Ernesto Geisel (Ernesto Geisel)
Foi no SNI que Figueiredo ganhou a fama de “Duque da Repressão”. Sob seu comando, a máquina de inteligência funcionou a todo vapor: DOI-CODI, Operação Condor, desaparecimentos, tortura. Mas também foi nesse período que Geisel começou a distensão e escolheu Figueiredo como sucessor exatamente porque precisava de alguém “da casa” que pudesse controlar os radicais da linha-dura.
A Eleição Indireta e a Posse a Cavalo (1979)
Em outubro de 1978, o Colégio Eleitoral (controlado pela ARENA) elegeu João Figueiredo com 355 votos contra 226 de Euler Bentes Monteiro, candidato do MDB. A 15 de março de 1979, tomou posse montado a cavalo, desfilando pela Esplanada dos Ministérios — imagem que entrou para a história e irritou boa parte da população que já queria eleições diretas.
“Eu vim para abrir, e vou abrir. Mas quem quiser que eu abra tudo de uma vez leva porrada.”
— João Figueiredo, 1979
A Abertura Política Lenta, Gradual e Irrestrita
O Período de Abertura Política no Brasil: Do Regime Militar à Redemocratização (1974-1985) | Canal ...
Apesar do discurso bruto, Figueiredo cumpriu o que prometeu — dentro dos limites que o regime permitia.
Principais medidas de abertura
- Lei da Anistia (1979) — Perdoou crimes políticos de ambos os lados. Trouxe de volta exilados como Leonel Brizola, Luiz Carlos Prestes e Miguel Arraes, mas também anistiou torturadores.
- Fim do AI-5 (31/12/1978, ainda no governo Geisel, mas executado por Figueiredo)
- Reforma partidária (1979) — Extinção do bipartidarismo ARENA/MDB. Surgem PDS, PMDB, PT, PDT, PTB.
- Eleições diretas para governadores em 1982 — Primeira grande derrota do regime: oposição vence em 10 estados, incluindo São Paulo (Franco Montoro), Rio (Brizola) e Minas (Tancredo Neves — leia sobre ele em Tancredo Neves).
- Emenda Dante de Oliveira (1984) — Proposta de eleições diretas para presidente. Derrotada por 22 votos na Câmara. Nasce o movimento Diretas Já.
A Crise Económica: O Pior Momento do Milagre Desfeito
A partir do golpe de 1964, não por acaso, durante todo o período militar ocorreu o chamado Milagre ...
Se politicamente Figueiredo abriu, economicamente o país afundou. Herdou a crise do segundo choque do petróleo (1979), juros internacionais altíssimos e a dívida externa explodindo.
- Inflação de 110% em 1979 → 223% em 1983 → 235% em 1985
- Recessão profunda em 1981-1983 (o “milagre económico” dos anos Médici acabou)
- Maxidesvalorizações do cruzeiro, congelamentos, planos cruzado ainda viriam depois
- Greves históricas no ABC paulista (1978-1980) com o surgimento de Lula e do PT
Saúde e Ausências: O Presidente Fantasma
Em setembro de 1981, Figueiredo sofreu um infarto. Passou 42 dias afastado. Voltou mais fraco e com problemas cardíacos graves. Nos últimos dois anos de mandato, aparecia pouco em público. O Brasil era governado muitas vezes pelo vice Aureliano Chaves ou pelo ministro Leitão de Abreu.
O Fim do Regime: Tancredo, Sarney e a Nova República
Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo Neves (PMDB) e José Sarney (ex-PDS) como presidente e vice. Figueiredo recusou-se a passar a faixa presidencial. A 15 de março de 1985, entregou o cargo a Sarney num quartel, sem cerimónia, dizendo que “estava de saco cheio”.
Morreu Tancredo Neves antes de tomar posse. Sarney tornou-se o primeiro presidente civil após 21 anos.
Últimos Anos e Legado
Figueiredo afastou-se completamente da vida pública. Morou numa casa simples em São Conrado, no Rio, recusava entrevistas e vivia praticamente recluso. Faleceu a 24 de dezembro de 1999, aos 81 anos, de insuficiência renal e cardíaca.
Hoje o seu legado é controverso:
- Para alguns, foi o “abridor” que evitou uma guerra civil
- Para outros, foi o responsável por manter a repressão até o último minuto e por entregar um país em frangalhos económicos
Perguntas Frequentes sobre João Figueiredo
Figueiredo foi linha-dura ou liberal?
Por que ele montou a cavalo na posse?
Figueiredo chorou em público?
Ele foi o responsável pela Lei Áurea de 1985?
Figueiredo sofreu atentado?Figueiredo sofreu atentado?
O General que Fechou a Porta da Ditadura
João Figueiredo não foi um democrata convicto. Foi um militar pragmático que percebeu que o regime estava insustentável. Abriu o suficiente para evitar um colapso violento, mas nunca abriu mão do controle total até o último dia. Morreu odiando a política e dizendo que “o povo não presta”. Paradoxalmente, foi exatamente ele quem permitiu que esse mesmo povo voltasse a escolher seus governantes.
Se quiser aprofundar mais na história da ditadura militar brasileira, recomendo os artigos sobre os outros presidentes do período:
- Ernesto Geisel – o criador da distensão
- Emílio Garrastazu Médici – os anos de chumbo
- Artur da Costa e Silva – o AI-5
- Humberto Castello Branco – o primeiro
- José Sarney – o civil que recebeu a faixa
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Artigo escrito com base em fontes históricas e arquivos públicos. Mais de 4800 palavras de pura paixão pela história brasileira.