Explore a vida e o legado de um dos líderes mais controversos e influentes da história contemporânea do Brasil c. 1800-presente
Getúlio Dornelles Vargas permanece, décadas após sua morte, como uma das figuras mais fascinantes e polarizadoras da política brasileira. Para alguns, foi o “pai dos pobres”; para outros, um ditador astuto. A verdade, como sempre na história, está em algum lugar no meio – ou talvez em todos os lados ao mesmo tempo. Neste artigo, mergulharemos profundamente na trajetória de Getúlio Vargas, contextualizando-o dentro das transformações do Brasil no século XX e conectando sua era com eventos globais que moldaram o mundo moderno.
Origens: De São Borja ao Palácio do Catete
Nascido em 19 de abril de 1882, em São Borja, Rio Grande do Sul, Getúlio veio de uma família tradicional de estancieiros gaúchos. Sua formação militar inicial e posterior carreira jurídica o prepararam para uma ascensão política meteórica no cenário da Primeira República, marcada pelo domínio das oligarquias cafeeiras – a famosa política do “café com leite”.
Vargas iniciou sua carreira como deputado estadual, depois federal, ministro da Fazenda de Washington Luís e, finalmente, presidente do Rio Grande do Sul. Sua visão modernizadora já se manifestava: defendia a intervenção estatal na economia, ideia que chocava os liberais paulistas e mineiros da época.
A Crise de 1929 e o Caminho para a Revolução
A crise de 1929 abalou o mundo inteiro, mas no Brasil derrubou o equilíbrio frágil da República Velha. A superprodução de café, a queda brutal dos preços e o desemprego nas cidades criaram um caldo de cultura perfeito para o descontentamento.
Em 1930, a Aliança Liberal lançou Vargas contra Júlio Prestes. Embora Prestes tenha vencido oficialmente, acusações de fraude inflamaram os ânimos. O assassinato de João Pessoa, vice na chapa de Vargas, foi a faísca. Em 3 de outubro de 1930, explodiu a Revolução de 1930, que depôs Washington Luís e impediu a posse de Prestes.
Uma junta governativa provisória de 1930 assumiu temporariamente até que Vargas chegasse ao Rio de Janeiro em 31 de outubro, iniciando o Governo Provisório.
O Governo Provisório (1930–1934): Consolidação do Poder
Nos primeiros anos, Vargas governou por decreto, dissolvendo o Congresso e intervindo nos estados com “interventores”. Nomeou gaúchos e tenentes para cargos-chave, rompendo com as velhas oligarquias.
Medidas importantes:
- Criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio
- Primeiras leis trabalhistas brasileiras
- Queima de estoques de café para sustentar preços
- Início da política de substituição de importações
A crise política da oligarquia paulista culminou na Revolução Constitucionalista de 1932. São Paulo, sentindo-se alijado do poder, rebelou-se. Embora derrotada militarmente, a revolta forçou Vargas a prometer eleições para uma Assembleia Constituinte.
A Constituição de 1934 e o Governo Constitucional
Em 1934, foi promulgada uma constituição progressista, inspirada na de Weimar. Previa voto secreto, justiça do trabalho e até voto feminino (embora só implementado em 1932 por decreto anterior).
Vargas foi eleito indiretamente presidente para o período 1934–1938. Parecia que o Brasil caminhava para uma democracia consolidada.
Mas as tensões cresciam: de um lado, a Aliança Nacional Libertadora, de inspiração comunista liderada por Luís Carlos Prestes; do outro, a Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, de cunho fascista.
Em 1935, explodiu a Intentona Comunista. Vargas usou o episódio para decretar estado de sítio e reprimir opositores.
O Estado Novo (1937–1945): A Ditadura Vargas
Em 10 de novembro de 1937, Vargas deu o golpe que instituiu o Estado Novo. Dissolveu o Congresso, outorgou uma nova constituição autoritária (a “Polaca”) e censurou a imprensa.
Justificativas oficiais:
- Ameaça de um “plano Cohen” (suposto complô comunista, depois revelado como forjado)
- Necessidade de unidade nacional frente à polarização
Consolidação das Leis Trabalhistas
Paradoxalmente, foi no período ditatorial que Vargas implementou sua maior herança social:
- CLT – Consolidação das Leis do Trabalho (1943)
- Salário mínimo
- Jornada de 8 horas
- Férias remuneradas
- Estabilidade no emprego após 10 anos
Essas medidas criaram uma base de apoio popular urbana que perdura até hoje.
Industrialização e Nacionalismo Econômico
Vargas apostou forte na industrialização. Criou:
- Companhia Siderúrgica Nacional (Volta Redonda)
- Companhia Vale do Rio Doce
- Conselho Nacional do Petróleo (embrião da Petrobras)
Sua frase “O petróleo é nosso” ecoaria anos depois.
No contexto global, o Brasil inicialmente flertou com o Eixo. Mas, com a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial 1939-1945, Vargas alinhou-se aos Aliados, declarando guerra à Alemanha e Itália em 1942 e enviando a FEB à Itália.
O Fim do Estado Novo e a Redemocratização
As contradições tornaram-se insustentáveis: um ditador enviando tropas para lutar pela democracia na Europa enquanto mantinha censura e prisão política no Brasil.
Em 29 de outubro de 1945, os militares depuseram Vargas. Assumiu José Linhares, presidente do STF, até as eleições que elegeram Eurico Gaspar Dutra.
O Retorno Democrático: Presidente Eleito (1951–1954)
Exilado em São Borja, Vargas não abandonou a política. Fundou o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e, aliado ao PSP de Adhemar de Barros, venceu as eleições de 1950 com ampla maioria popular.
Seu segundo governo enfrentou enormes desafios:
- Inflação galopante
- Pressão da UDN e da imprensa (especialmente Carlos Lacerda)
- Crise econômica agravada pela Guerra da Coreia
Tentou retomar o projeto nacional-desenvolvimentista:
- Criação da Petrobras (1953)
- Plano de energia elétrica
- Reajustes salariais
Mas a oposição intensificou-se. O atentado da Rua Tonelero, em que morreu o major Rubens Vaz e foi ferido Carlos Lacerda, teve como um dos acusados Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas.
A Carta Testamento e o Suicídio
Acuado por pedidos de renúncia e ameaça de golpe militar, em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro no coração no Palácio do Catete.
Sua carta-testamento tornou-se lendária:
“Saio da vida para entrar na História.”
O gesto provocou comoção nacional e impediu, temporariamente, um golpe imediato. Assumiu Café Filho, mas o varguismo sobreviveu.
Legado de Getúlio Vargas
Vargas transformou o Brasil de uma república agrário-exportadora em um país com bases industriais e legislação trabalhista moderna. Seu modelo de intervenção estatal influenciou profundamente governos posteriores, especialmente Juscelino Kubitschek e até mesmo o milagre econômico da ditadura militar.
Críticas não faltam:
- Autoritarismo do Estado Novo
- Culto à personalidade
- Repressão política (Departamento de Ordem Política e Social – DOPS)
- Coronelismo modernizado
Mas é inegável que ele representou a entrada das massas na política brasileira.
Comparações Históricas
O estilo de Vargas lembra outros líderes populistas do período entre-guerras, como Perón na Argentina ou mesmo elementos do New Deal de Roosevelt. Diferente de ditadores fascistas como Adolf Hitler, Vargas não tinha projeto racial ou expansionista, mas usou propaganda e controle estatal de forma similar.
No contexto latino-americano, ele antecipou o desenvolvimentismo que marcaria a região nas décadas de 1950-1970.
Getúlio Vargas e Outros Presidentes Brasileiros
Para entender melhor o lugar de Vargas, vale comparar com antecessores e sucessores:
- Diferente de Deodoro da Fonseca ou Floriano Peixoto, que proclamaram a República, Vargas a transformou.
- Contrastando com Prudente de Morais, Campos Sales ou Rodrigues Alves, civilistas da Velha República.
- Seu estilo autoritário ecoaria na ditadura militar de 1964, embora com ideologia oposta.
- Influenciou diretamente João Goulart, seu ministro do Trabalho, cujo governo terminaria no golpe de 1964.
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Perguntas Frequentes sobre Getúlio Vargas
Por que Getúlio Vargas é chamado de “pai dos pobres”?
Pelas amplas leis trabalhistas da CLT, que beneficiaram milhões de trabalhadores urbanos, criando direitos até então inexistentes no Brasil.
O Estado Novo foi uma ditadura fascista?
Não exatamente. Embora autoritário e com censura, não tinha o componente racial ou expansionista do fascismo. Era mais um regime corporativista com forte intervenção estatal.
Vargas era comunista?
Não. Reprimiu duramente os comunistas em 1935. Seu projeto era nacional-desenvolvimentista, com elementos trabalhistas, mas dentro do capitalismo.
Por que ele se suicidou?
Pressionado por crises política e econômica, acusações de corrupção e ameaça de deposição militar, escolheu o suicídio como forma de preservar seu legado e mobilizar apoio popular.
Qual a principal herança de Vargas?
A legislação trabalhista, a industrialização por substituição de importações e a criação de empresas estatais estratégicas (CSN, Vale, Petrobras).
Um Legado que Ainda Nos Divide
Getúlio Vargas não foi santo nem demônio. Foi um político habilidoso que soube ler as demandas de modernização do Brasil e, ao mesmo tempo, concentrar poder como poucos.
Seu impacto é sentido até hoje: nas leis que protegem o trabalhador, na ideia de que o Estado deve intervir na economia, na polarização entre “entreguistas” e “nacionalistas”.
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