“Não sou ditador, sou um democrata que foi obrigado a usar métodos autoritários.” – Ernesto Geisel
Ernesto Beckmann Geisel (1907-1996) foi o 29.º Presidente do Brasil, governando de 15 de março de 1974 a 15 de março de 1979. Militar de carreira, gaúcho de Bento Gonçalves, formado na Escola Militar do Realengo e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Geisel é hoje lembrado como o grande articulador da chamada “abertura política lenta, gradual e segura”. Num país ainda marcado pela repressão dura do governo Emílio Garrastazu Médici, ele foi o homem que começou a desmontar o regime militar, mesmo sendo um general de quatro estrelas e tendo sido chefe do Gabinete Militar de Humberto Castello Branco, o primeiro presidente do regime.
Origens: de Bento Gonçalves ao Palácio do Planalto
Nascido a 3 de agosto de 1907, filho de imigrantes luteranos alemães, Geisel cresceu num ambiente disciplinado e religioso. Ingressou na carreira militar muito jovem e, ao longo das décadas de 1930 e 1940, destacou-se como oficial brilhante e intelectual. Participou da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), servindo na Itália, experiência que marcaria profundamente sua visão de mundo.
Nos anos 1960, já general, foi peça-chave na articulação do golpe de 1964. Chefe do Gabinete Militar de Castello Branco, ajudou a redigir o Ato Institucional nº 2 e foi um dos mentores da linha-dura inicial. Paradoxalmente, seria ele, dez anos depois, quem iniciaria o desmonte do próprio sistema que ajudara a criar.
O Brasil que Geisel recebeu em 1974
Quando assumiu, o país vivia o auge do chamado “milagre econômico”. O PIB crescia a quase 14% ao ano, Brasília brilhava, rodovias eram inauguradas semanalmente. Mas o preço era alto: censura, tortura, desaparecimentos, cassações. A vitória eleitoral da oposição (MDB) nas eleições de 1974 – a famosa “vitória moral” – mostrou que a sociedade brasileira já não engolia mais o discurso da “segurança nacional” sem contestação.
A Distensão: lenta, gradual… e cheia de armadilhas
Geisel cunhou a expressão que marcaria sua gestão: a abertura seria “lenta, gradual e segura”. Ele sabia que não podia romper bruscamente com a linha-dura do Exército, representada pelo temido SNI e pelo general Sylvio Frota. Por isso, jogou um xadrez sofisticado:
- Revogou o AI-5 em 1978 (decreto-lei que dava poderes absolutos ao presidente)
- Anistiou a maioria dos exilados políticos (Lei da Anistia de 1979)
- Permitiu o retorno de figuras como Leonel Brizola e Miguel Arraes
- Criou o divórcio (Emenda Constitucional nº 9/1977)
- Acabou com a censura prévia à imprensa
Mas não era um democrata ingênuo. Quando Vladimir Herzog foi assassinado no DOI-CODI de São Paulo em 1975, Geisel demitiu o comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Mello, num gesto que chocou os porões da repressão. Foi o primeiro sinal claro de que o jogo mudara.
O Pacote de Abril de 1977: o lado autoritário da distensão
Nem tudo foram flores. Quando percebeu que o MDB poderia ganhar novamente em 1978, Geisel fechou o Congresso por 15 dias e impôs o infamous “Pacote de Abril”:
- Senadores “biônicos” (1/3 indicados indiretamente)
- Lei Falcão (limitou propaganda eleitoral)
- Manutenção do colégio eleitoral indireto para presidente
Era o preço que pagava para manter o controle e evitar um rompimento traumático com os radicais do regime.
Economia: do fim do milagre ao endividamento externo
O “milagre” acabou. A crise do petróleo de 1973 dobrou o preço do barril e o Brasil, que importava 80% do petróleo, entrou em choque. Geisel respondeu com o II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), apostando tudo em grandes obras:
- Transamazônica
- Ponte Rio-Niterói
- Usina de Itaipu
- Programa nuclear com a Alemanha Ocidental
- Proálcool
O resultado? Crescimento médio de 6,8% ao ano, mas dívida externa que saltou de 12 bilhões para quase 54 bilhões de dólares. A festa estava paga com cheque especial.
Geisel x Golbery: o cérebro por trás do trono
Impossível falar de Geisel sem mencionar Golbery do Couto e Silva, o general-filósofo que foi seu chefe da Casa Civil. Autor da teoria do “centro geopolítico” e mentor intelectual da distensão, Golbery era o contraponto perfeito ao pragmatismo de Geisel. Juntos, formaram uma das duplas mais poderosas da história republicana brasileira.
As eleições de 1978 e a escolha de Figueiredo
Sabendo que não poderia mais prorrogar seu mandato, Geisel impôs o general João Figueiredo como sucessor, contra a vontade de grande parte da linha-dura que queria Sylvio Frota. No famoso discurso de 1978, Geisel disse a frase histórica:
“Faço a abertura porque quero, e não porque me obrigam.”
Foi sua vitória final sobre os radicais.
Legado: herói da redemocratização ou continuísmo autoritário?
A discussão persiste até hoje.
Para uns, Geisel foi o grande responsável pela transição pacífica que culminaria na Constituição de 1988. Sem ele, talvez tivéssemos vivido uma guerra civil como na Argentina.
Para outros, sua abertura foi apenas uma estratégia de sobrevivência do regime, e ele nunca rompeu de fato com a essência autoritária – afinal, manteve o SNI, a Lei de Segurança Nacional e o sistema bipartidário até o fim.
A verdade provavelmente está no meio. Geisel foi um conservador iluminado que entendeu, antes dos outros generais, que o regime militar estava condenado pela própria sociedade que reprimia.
Cronologia resumida do governo Geisel (1974-1979)
- 1974 – Posse. Vitória do MDB nas eleições legislativas
- 1975 – Morte de Vladimir Herzog. Demissão do comandante do II Exército
- 1976 – Atentado da Riotransmissor (carta-bomba mata secretária)
- 1977 – Pacote de Abril. Fechamento do Congresso
- 1978 – Revogação do AI-5
- 1979 – Lei da Anistia. Fim do bipartidarismo (criação do PT, PDT, PTB etc.)
Perguntas Frequentes sobre Ernesto Geisel
Geisel era linha-dura ou abertura?
Era ambos. Linha-dura nos anos 1960, abriu nos anos 1970 quando percebeu que o regime não sobreviveria sem mudança.
Por que ele brigou com a linha-dura?
Porque queria preservar o Exército como instituição. Sabia que a continuidade da repressão levaria à desmoralização total das Forças Armadas.
Geisel sabia da tortura?
Sim. Há documentos desclassificados mostrando que ele recebia relatórios do SNI e do CIE. Nunca incentivou, mas tolerou até certo ponto. A partir de 1975-76 começou a coibir.
Ele foi o melhor presidente da ditadura?
Para muitos historiadores (Elio Gaspari, Thomas Skidmore, Maria Helena Moreira Alves), sim. Foi o único que teve coragem de enfrentar seus próprios pares.
E o caso Riocentro?
A tentativa de atentado em 1981 aconteceu já no governo Figueiredo, mas foi herança da linha-dura que Geisel havia contido – e que voltou com força quando ele saiu.
Quer saber mais sobre a Ditadura Militar brasileira?
Explore nossa série completa de presidentes do regime:
- Deodoro da Fonseca (primeiro presidente da República)
- Floriano Peixoto
- Prudente de Morais
- Campos Sales
- Rodrigues Alves
- Afonso Pena
- Getulio Vargas
- Eurico Gaspar Dutra
- Juscelino Kubitschek
- João Goulart
- Artur da Costa e Silva
- Emílio Garrastazu Médici
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- João Figueiredo
- José Sarney
E não deixe de conferir nossos artigos temáticos:
Ernesto Geisel não foi um herói romântico da redemocratização. Foi um general pragmático, autoritário quando necessário, mas suficientemente lúcido para entender que o Brasil de 1979 não era mais o de 1964. Deixou o poder com o país crescendo, com dívida externa altíssima, mas – e isso é o que importa – com a ditadura agonizando.
Sem Geisel, talvez não tivéssemos tido Tancredo, Sarney, a Constituinte de 1988 e a democracia que, com todos os seus defeitos, temos hoje.
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