De médico pneumologista a 18.º Presidente do Brasil, João Fernandes Campos Café Filho viveu uma trajetória inesperada que o colocou no centro do turbulento ano de 1954-1955. Descubra a vida, as escolhas e o legado de um homem que nunca quis ser presidente, mas acabou marcando para sempre a história política brasileira.
Quem foi Café Filho? Uma biografia resumida
Nascido a 3 de fevereiro de 1899 em Natal, Rio Grande do Norte, João Café Filho veio ao mundo no seio de uma família modesta. Filho de um pequeno comerciante e de uma dona de casa, cedo revelou inteligência acima da média. Formou-se em Direito, mas nunca exerceu a advocacia com paixão. O que realmente o fascinava era a medicina, especialmente a pneumologia — área em que se especializou e clinicou com sucesso na capital potiguar.
Membro histórico do Partido Social Progressista (PSP) e aliado de primeira hora de Adhemar de Barros, Café Filho elegeu-se deputado federal, senador e, em 1950, vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. Quem diria que aquele médico discreto de Natal assumiria a Presidência da República apenas quatro anos depois?
Se quiser conhecer a fundo a trajetória de Getúlio Vargas, não deixe de ler o artigo completo aqui: Getúlio Vargas.
O suicídio de Vargas e a ascensão inesperada
Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o Brasil acordou em choque: Getúlio Vargas havia se suicidado com um tiro no coração no Palácio do Catete. A comoção foi nacional. Milhares choravam nas ruas, enquanto a elite política tentava entender o que fazer com o vazio de poder.
Café Filho, que passava férias em Minas Gerais, recebeu a notícia pelo rádio. Horas depois, já estava a caminho do Rio de Janeiro para tomar posse. Aos 55 anos, o vice-presidente potiguar tornava-se o 18.º presidente do Brasil num dos momentos mais delicados da nossa história republicana.
“Não desejei, não procurei, não ambicionei o cargo. Aceito-o por imposição do dever.”
— Café Filho, discurso de posse, 24 de agosto de 1954
Os 15 meses que abalaram a República
1. A tentativa de pacificação nacional
Café Filho tentou ser o “presidente da conciliação”. Formou um ministério heterogêneo, com nomes da UDN, do PSD e até do PSP. Trouxe Eduardo Gomes (seu ex-adversário em 1950) para o Ministério da Aeronáutica e Henrique Lott para a Guerra. Parecia que o Brasil poderia respirar aliviado.
2. A crise econômica e a “política de contenção”
O país vivia inflação alta e déficit nas contas públicas. Café Filho nomeou Eugênio Gudin — um liberal convicto — para o Ministério da Fazenda. Gudin adotou medidas ortodoxas: corte de subsídios, contenção do crédito e abertura comercial. Resultado? A inflação caiu de 25% para 18% em 1955, mas o custo social foi alto: desemprego e queda de popularidade.
3. O escândalo da “República do Galeão” e a tentativa de golpe da “Ala Moça” da UDN
Em fevereiro de 1955, o jornal Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, acusou o governo de corrupção no Banco do Brasil. Café Filho criou uma comissão de inquérito no Aeroporto do Galeão — daí o nome “República do Galeão”. A investigação terminou sem provas contundentes, mas alimentou a narrativa golpista.
4. O atentado da Rua Tonelero (5 de agosto de 1954)
Embora tenha ocorrido antes da posse, o atentado que matou o major-aviador Rubens Vaz e feriu Carlos Lacerda foi o estopim da crise que derrubou Vargas. Café Filho herdou um clima de guerra civil latente. O clima nas Forças Armadas era de divisão total.
Se quiser entender melhor o contexto do atentado da Tonelero, recomendo fortemente este artigo: Getúlio Vargas.
A doença misteriosa e a licença de 1955
Em 3 de novembro de 1955, Café Filho sofreu um colapso cardiovascular. Foi internado às pressas no Hospital dos Servidores, no Rio. Os médicos diagnosticaram “cardiopatia grave” e recomendaram repouso absoluto.
No dia 8 de novembro, Café Filho assinou o pedido de licença por 90 dias. Quem assumiria? O presidente da Câmara, Carlos Luz.
Aqui começou o drama.
O “golpe preventivo” de 11 de novembro de 1955
Carlos Luz era visto como aliado de Carlos Lacerda e da ala udenista mais radical. Havia rumores (e provas posteriores) de que ele preparava um golpe para impedir a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart, eleitos em 3 de outubro de 1955.
O general Henrique Lott, ministro da Guerra, agiu primeiro. Na madrugada de 11 de novembro de 1955, desencadeou o chamado “Movimento de 11 de Novembro” — um contragolpe preventivo que depôs Carlos Luz e impediu o golpe udenista.
Café Filho, ainda hospitalizado, foi informado do movimento. Tentou voltar ao poder no dia 21 de novembro, saindo do hospital de pijama e robe, mas o Congresso, pressionado pelas Forças Armadas, declarou-o impedido por razões de saúde.
No dia 22 de novembro de 1955, Nereu Ramos (presidente do Senado) assumiu interinamente até a posse de Juscelino em 31 de janeiro de 1956.
Quer saber mais sobre esse período turbulento? Veja os artigos:
Café Filho após a Presidência: exílio, retorno e morte
Humilhado pelo impedimento, Café Filho afastou-se da política. Em 1958, candidatou-se a deputado federal pelo PRP, mas não se elegeu. Em 1960, apoiou Jânio Quadros.
Com o golpe de 1964, temendo prisão, exilou-se em 1965 nos Estados Unidos. Regressou apenas em 1968, já doente. Faleceu em 20 de fevereiro de 1970, aos 71 anos, vítima de câncer.
Está enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
Legado: herói ou vilão?
A historiografia ainda discute o papel de Café Filho:
- Para alguns, foi um presidente honesto que tentou pacificar o país num momento impossível.
- Para outros, foi um presidente fraco que abriu espaço para a radicalização udenista e entregou o poder aos militares com o impedimento.
A verdade provavelmente está no meio: Café Filho nunca quis ser presidente e, quando foi, não tinha força política nem base partidária para segurar o Brasil num dos seus períodos mais instáveis.
Perguntas Frequentes sobre Café Filho
Café Filho era getulista?
Não exatamente. Embora tenha sido eleito vice na chapa de Vargas em 1950, Café Filho era do PSP de Adhemar de Barros. Sua relação com o PTB era distante.
Por que ele foi impedido de voltar ao cargo em novembro de 1955?
Porque o Congresso, pressionado pelo movimento liderado por Lott, considerou que sua saúde não permitia o retorno. Muitos historiadores veem nisso um golpe parlamentar-militar disfarçado.
Café Filho sofreu golpe?
Sim. O “11 de novembro” foi um contragolpe que o afastou definitivamente do poder, mesmo estando vivo e querendo reassumir.
Ele apoiou o golpe de 1964?
Sim. Em 1964, Café Filho assinou o manifesto de apoio ao movimento militar. Isso explica seu exílio posterior — temia retaliação dos derrotados.
Um presidente esquecido, mas essencial
Café Filho governou o Brasil por apenas 15 meses, mas esses 15 meses foram decisivos para que a democracia sobrevivesse (ou quase perecesse) em 1955. Ele foi o elo frágil entre o suicídio de Vargas e a posse de Juscelino — o homem que ninguém queria, mas que o destino colocou no centro da história.
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