Indivíduos diferentes
Não foram aqueles heróis das concepções tradicionais. Afinal, ninguém sozinho pode mudar o curso da história. Mas podem ser vistos como exemplos de homens que se engajaram nas lutas de seu tempo. Semelhantes a eles, multidões de anônimos sem os quais não teriam sido possiveis as ações pelas quais são recordados. Queremos lembrar Cipriano Barata, o Frei Caneca e as multidões anônimos semelhantes.
Cipriano Barata (1762-1838) era baiano, filho de oficial do exército, descente de portugueses e de negros. Estudou medicina, filosofia e matemática em Coimbra e conheceu de perto a Revolução Francesa. De volta para o Brasil, em Salvador, sua cidade natal, ficou conhecido como o médico dos pobres. Era o doutor que não cobrava consulta, o frequentador dos terreiros de macumba, o namorador das negras bonitas da Bahia e, antes de tudo, o agitador. Onde houvesse uma rebelião, um protesto, um levante, lá estava Cipriano. Líder na Conjuração Baiana de 1798, na Revolução Pernambucana de 1817 e, embora preso, na Confederação do Equador.
Grande jornalista, não teve papas na língua em acusar D. Pedro I de tirano. Volta e meia era encarcerado, tendo estado pela última vez na cadeia com quase 70 anos de idade! Deputados nas Cortes em Lisboa, escandalizou a todos ao propor o direito de cidadania aos escravos. Mesmo na cadeia, dava um jeito de escrever seus artigos inflamados contra as autoridades. Visitado na prisão pelo imperador, que queria vê-lo suplicando perdão, virou as costas altivamente. Cipriano Barata poderia ter tido uma vida tranquila de intelectual à sombra dos ricos. Todavia, escolheu uma existência de combates pela liberdade e pelos direitos do povo. Foi perseguido, preso e arruinado. Saiba que lutar pela liberdade dos outros era, de alguma forma, libertar-se.
Frei Caneca (1779-1825) acrescentou o "Caneca" a seu nome porque tinha sido criança pobre que sobreviveu vendendo canecas nas ruas de Recife colonial. Estudou no Seminário de Olinda, famoso por transmitir ideais iluministas e politicamente liberais aos alunos. Caneca tornou-se frei carmelita e abraçou a causa dos "radiciais". Tomou parte da Revolução do Equador. Em seu jornal, atacava a Constituição por ser "contrária à liberdade, independência e direitos do Brasil". Lembrava que a Constituição só seria legítima se expressasse um livre pacto (um contrato político) entre o governo e os governados, o que não tinha acontecido. Depois da derrota da Confederação do Equador, Caneca foi fuzilado.