“Chegou a morte negra, e ninguém sabia de onde vinha. Os mortos eram tantos que já não havia lugar nos cemitérios, e os vivos começaram a duvidar se ainda valia a pena rezar.”
— Crónica de Gilles Li Muisis, monge de Tournai, 1349
A Peste Negra não foi apenas uma epidemia: foi o maior choque biológico, social, económico e cultural que a Europa medieval jamais sofreu. Entre 1347 e 1351, entre 30% e 60% da população do continente desapareceu — números que só voltariam a ser vistos em guerras do século XX. Este artigo mergulha fundo na origem, propagação, consequências e legado da pandemia que mudou o rumo da história.
Origem: Das Estepes da Ásia à Europa
Tudo começou muito antes de 1347. A bactéria Yersinia pestis vivia em pulgas de roedores nas estepes da Mongólia e da Ásia Central. Com a expansão do Império Mongol (1206-1368), as rotas comerciais da Rota da Seda tornaram-se auto-estradas para micróbios. Em 1331-1332 já havia surtos na China; em 1345-1346, o exército mongol de Janibeg cercou o porto genovês de Caffa (Crimeia) e catapultou cadáveres infectados por cima das muralhas — o primeiro ataque biológico documentado da História.
Os navios genoveses que fugiram de Caffa em 1347 levaram a praga para Messina (Sicília), Génova, Veneza e Marselha. Em poucos meses, o Mediterrâneo estava em chamas negras.
As Três Formas da Doença
A Yersinia pestis atacava de três maneiras distintas:
- Peste bubónica (70-80% dos casos) – linfonodos inchavam até ao tamanho de ovos (os “bubões”), febre altíssima, morte em 3-5 dias.
- Peste septicémica – infecção directa no sangue, morte em menos de 24 horas.
- Peste pneumónica – a forma mais letal e contagiosa, transmitida por gotículas no ar. Bastava tossir perto de alguém.
Cronologia da Catástrofe (1347-1351)
- Outubro 1347 – Primeiros casos em Messina
- Janeiro 1348 – Chega a Marselha, Pisa e Veneza
- Junho 1348 – Londres e Paris são atingidas
- 1348-1349 – Varre a Escandinávia, Polónia e Rússia
- 1351 – Chega ao extremo norte da Rússia (Arquengelsk)
Na Inglaterra, 50-60% da população morreu. Em Florença, Boccaccio escreveu no Decameron que “em muitos lugares enterravam-se os mortos em valas comuns sem qualquer cerimónia”. Em Avignon, o Papa Clemente VI consagrou o rio Ródano para que os cadáveres pudessem ser lançados às águas.
Impacto Demográfico: Um Continente Despovoado
Estima-se que a Europa tenha perdido entre 25 e 50 milhões de pessoas — possivelmente metade da população total. Cidades como Florença passaram de 120 000 para 50 000 habitantes. Vilas inteiras desapareceram. Na Noruega, 60% das quintas ficaram abandonadas.
Consequências Económicas e Sociais
Salários disparam, preços dos cereais caem
Com tanta gente morta, a mão-de-obra tornou-se escassa. Na Inglaterra, os salários reais duplicaram entre 1350 e 1450. Os camponeses começaram a exigir liberdade de movimento e o fim da servidão — o que acelerou o declínio do feudalismo.
Revolta dos camponeses
- Jacquerie (França, 1358)
- Revolta dos Camponeses (Inglaterra, 1381)
- Tumultos em Florença (Ciompi, 1378)
Perseguição aos “culpados”
Judeus, leprosos, ciganos e estrangeiros foram acusados de envenenar poços. Em 1348-1349 houve mais de 300 pogroms. Em Estrasburgo, 2 000 judeus foram queimados vivos numa única fogueira.
O Choque Cultural e Religioso
A Igreja, incapaz de explicar o flagelo, perdeu credibilidade. Surgiram os flagelantes — bandos que se açoitavam em público pedindo perdão pelos pecados da humanidade. Danças macabras tornaram-se tema comum na arte. A frase memento mori (“lembra-te que hás-de morrer”) nunca foi tão literal.
“Padre, por que morrem os justos e vivem os maus?”
Pergunta registada em sermão de 1349
A Peste Negra e o Fim da Idade Média
Sem a Peste Negra:
- Talvez o feudalismo durasse mais um século
- O Renascimento (c. 1300-1600) teria menos capital humano e financeiro
- A Reforma Protestante (1517) talvez não tivesse a mesma força
- A própria Guerra dos Cem Anos (1337-1453) teve o seu curso alterado pela pandemia
A Peste no Mundo Islâmico e na Ásia
Embora a Europa tenha sido o epicentro, o Médio Oriente também sofreu. Em Cairo, Ibn Khaldun perdeu os pais e muitos mestres. Na Síria e no Egipto, as estimativas apontam para 30-40% de mortalidade. Na China dos Yuan, a população pode ter caído de 120 para 65 milhões entre 1200 e 1393 — parte disso devido à peste.
A Ciência Moderna Nasce Também da Peste
A incapacidade da medicina galênica (sangrias, purgantes) em lidar com a doença abriu caminho ao empirismo. Universidades como a de Bolonha começaram a fazer autópsias apesar da proibição papal. Em 1546, Girolamo Fracastoro já falava em “sementes de doença” — o gérmen da teoria microbiana.
Perguntas Frequentes
1. A Peste Negra ainda existe?
Sim. Há casos todos os anos (Madagáscar, Mongólia), mas a antibiótico-terapia torna-a curável em 24-48h se tratada cedo.
2. Foi realmente a Yersinia pestis?
Estudos de DNA antigo em esqueletos de 1348-1350 (Londres, Barcelona, Bolonha) confirmaram-no em 99,9% dos casos.
3. Por que a Europa sofreu mais do que a Ásia?
Maior densidade populacional urbana, higiene precária, casas de madeira cheias de ratos, e ausência de imunidade prévia.
4. A Peste Negra voltou?
Sim. A “segunda pandemia” durou até 1750, com surtos em Londres (1665), Marselha (1720), etc. A “terceira pandemia” começou em 1855 na China e chegou à América.
5. Qual foi a cidade mais devastada?
Florença, Siena e Hamburgo perderam cerca de 60% da população. Em Siena, Agnolo di Tura escreveu: “Eu mesmo enterrei os meus cinco filhos com as minhas mãos.”
A Morte que Deu Vida à Modernidade
A Peste Negra foi o maior trauma colectivo da Europa medieval, mas também o seu maior catalisador de mudança. Matou milhões, mas libertou os sobreviventes da servidão, enriqueceu os trabalhadores, enfraqueceu a Igreja e abriu caminho ao Renascimento, à Reforma e ao capitalismo.
Se quiser aprofundar mais temas relacionados — desde o Império Mongol que espalhou a doença até à Guerra dos Cem Anos que decorreu em paralelo — explore o Canal Fez História.
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