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Pré-História

O Homem de Neanderthal: Uma Jornada pela História Humana

Publicado em 28 de setembro de 2025

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O Homem de Neanderthal: Uma Jornada pela História Humana

O homem de Neandertal (Homo neanderthalensis na nomenclatura binomial) é uma espécie humana extinta. Alguns autores consideram-no como subespécie do Homo sapiens, o homem moderno, com o qual conviveu (Homo sapiens neanderthalensis e Homo sapiens sapiens, respectivamente). Surgiram há cerca de 400 mil anos na Europa e no Médio Oriente e, na Península Ibérica, extinguiram-se há 28 mil anos.

Compartilha com os humanos atuais em 99,7 % do seu DNA. Revela no entanto diferenças morfológicas significativas. Prevalece como fóssil do género Homo enquanto habitante remoto da Europa e de territórios da Ásia ocidental desde há cerca de 350 000 até há 29 000 anos aproximadamente (Paleolítico Médio e Paleolítico Inferior, no Pleistoceno).

A cultura material do homem de Neandertal, chamada cultura musteriense, era sofisticada em vários aspectos. Além de ferramentas, também usavam o fogo, eram bons caçadores e já cuidariam dos doentes. Há inclusivamente quem nele reconheça capacidades estéticas e espirituais semelhantes às do homem atual, como as reveladas nas suas sepulturas, malgrado ser visto no imaginário popular como um ser grosseiro e pouco inteligente. Era de maior robustez física que o homem atual e tinha um cérebro ligeiramente mais volumoso.

O cérebro do Homo sapiens sapiens tem um tamanho médio de 1400 cm³, enquanto o dos neandertais chegava a ter cerca de 1600 cm³. Progressos relativos da arqueologia pré-histórica e da paleoantropologia, posteriores à década de 1960, descrevem-no como um ser de considerável cultura, eventualmente sobrestimada por alguns autores. Muitas questões carecem de uma resposta conclusiva, sobretudo as relacionadas com a sua extinção.

Descoberta

Os primeiros achados de restos do homem de Neanderthal ocorreram nas grutas de Engis, na atual Bélgica (1829), por Philippe-Charles Schmerling, e depois na pedreira de Forbes, em Gibraltar (1848) - ambos anteriores à descoberta do espécime tipo, em uma mina de calcário situada no Neanderthal (em português, 'vale de Neander'), que fica entre as cidades de Erkrath e Mettmann, nas proximidades de Düsseldorf e Wuppertal, na Alemanha. A descoberta do espécime de Neanderthal ocorreu em agosto de 1856, três anos antes da publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin.

O fóssil de Forbes foi descoberto na pequena gruta de uma pedreira. Esta descoberta é hoje considerada como o marco fundador da paleoantropologia. Pouco tempo depois, foram aí encontrados vestígios antropológicos de cerca de 500 indivíduos, sobretudo ossos, alguns dos quais bastante incompletos. O espécime de Forbes, classificado como Neandertal 1, era constituído por uma calota craniana, dois fémures, três ossos do braço direito, dois do esquerdo, parte do ilíaco esquerdo e fragmentos de uma omoplata e costelas.

O achado foi atribuído pelos operários da pedreira a despojos de ursos e entregue ao naturalista amador Johann Carl Fuhlrott, professor em Elberfeld. Impressionado pelo crânio baixo e espesso, pelas arcadas supraciliares proeminentes, membros arqueados e curtos, Fuhlrott deduziu que deveriam ter pertencido a um ser humano muito primitivo. Levou os fósseis ao anatomista Hermann Schaaffhausen e, em 1857, a descoberta foi anunciada por ambos. Em 1858, Schaaffhausen descrevia-o como tendo pertencido "às raças humanas mais antigas", que datou em cerca de alguns milénios antes, o que daria origem a intensa polémica, já que a Teoria da Evolução ainda estava longe de ser aceite nos meios académicos.

Nome e classificação

O topónimo Neandertal, na denominação da espécie (ou subespécie), é alusivo a Joachim Neander (1650-1680), teólogo pietista que tinha por hábito fazer pregações entre as cidades de Erkrath e Mettmann, nas proximidades de Düsseldorf e Wuppertal, na Alemanha.

A expressão "homem de Neandertal" foi cunhada em 1863 pelo anatomista irlandês William King. Durante vários anos de intenso debate científico quanto à denominação mais adequada, Homo neanderthalensis ou Homo sapiens neanderthalensis, a segunda designação implicava ter de se considerar o homem de Neandertal como uma subespécie do Homo sapiens, o Homo sapiens sapiens, ambos pertencendo à linhagem humana. Estudos ulteriores sobre o DNA mitocondrial levariam entretanto a supor que tanto os neandertais como o Homo sapiens evoluíram de um ancestral comum, faltando apenas saber quando teria ocorrido essa separação.

Características físicas

De nariz curto, mas largo e volumoso, os neandertais estavam adaptados ao clima frio. Essas características, observadas nas modernas populações sub-árticas, resultam da seleção natural. Os neandertais teriam habitado em áreas próximas do Ártico. Seus cérebros eram aproximadamente 10% maiores em volume do que os dos humanos modernos. Em média, os neandertais tinham cerca de 1,65 m de altura e eram muito musculosos. Comparados com os humanos modernos, possuíam feições morfológicas distintas, especialmente no crânio, que gradualmente acumulou aspectos específicos, em particular devido ao seu relativo isolamento geográfico.

A sua estatura atarracada pode ter sido uma adaptação ao clima frio da Europa durante o Pleistoceno. Nada se conhece sobre a forma dos olhos, orelhas e lábios dos neandertais. Por analogia, teriam pele muito branca, para um melhor aproveitamento do calor nessas frias latitudes da Europa. Estudos recentes revelam que alguns indivíduos eram de pele branca e de cabelo ruivo

Segue-se uma lista de traços físicos que distinguem os neandertais dos humanos modernos. Nem todos esses traços servem para distinguir populações específicas de neandertais, de diversas áreas geográficas ou de diversos períodos da evolução, de outros humanos extintos. Por outro lado, muitos desses traços estão ocasionalmente presentes nos modernos humanos, sobretudo em determinados grupos étnicos.

Linguagem

A teoria de que os neandertais careciam de uma linguagem complexa prevaleceu até 1983, quando um osso hióide foi descoberto na caverna de Kebara em Israel, idêntico ao dos humanos modernos, que segura a raiz da língua no seu lugar e que faculta a fala, mostrando que os neandertais tinham capacidade de se exprimir por essa via. Mesmo sem tal evidência, é óbvio que ferramentas avançadas como as do período musteriense, atribuídas aos neandertais, não poderiam ter sido desenvolvidas sem capacidades cognitivas, incluindo algum tipo de linguagem falada. Além disso, foram identificados genes extraídos de fósseis que comprovariam que os neandertais falavam. A única diferença seria que a língua do neandertal estava implantada mais acima na garganta, deixando a boca mais cheia, fazendo com que a sua fala fosse lenta, compassada e nasalizada.

Cultura técnica

Os sítios arqueológicos compostos por jazidas com ocupações de homens de Neandertal do Paleolítico Médio, altura em que os neandertais terão atingido o auge da sua existência, mostram um conjunto de ferramentas menor e menos flexível em comparação com os sítios do Paleolítico Superior, ocupados pelos humanos modernos que mais tarde surgiram.

Esta cultura técnica, atribuída aos neandertais, designada como musteriense, consistia na produção de ferramentas de pedra lascada pelo desbastamento em leque de um bloco lítico inicial (ou núcleo): lascas a partir das quais se encadeava a produção de instrumentos diversos, como machados destinados a tarefas específicas, bifaces, raspadeiras, furadores e lanças. Muitas dessas ferramentas eram bastante afiadas. No Paleolítico Superior terão desenvolvido uma cultura material mais evoluída na tecnologia de talhe da pedra, designada chatelperronense e caracterizada pelo desdobramento do núcleo lítico em peças menores e mais manuseáveis.

Há ainda indícios de que os neandertais usavam chifres, conchas e outros materiais ósseos para fazer ferramentas: uma indústria primária que passou a incluir, mais tarde, adornos de osso e pedra que alguns autores descrevem como imitação das técnicas do Homo sapiens, enquanto que outros lhes atribuem autoria própria.

Mesmo usando armas, não as arremessavam. Tinham lanças compridas de madeira com uma seta na ponta, mas não as lançavam. As lanças fabricadas para serem arremessadas eram usadas pelo Homo sapiens. De modo idêntico, os ritos funerários neandertais, embora implicassem enterrar os mortos, eram menos elaborados que os dos modernos humanos.

Os neandertais também sabiam executar tarefas sofisticadas como as tradicionalmente atribuídas aos humanos: construir abrigos complexos, controlar o fogo, esfolar animais. Particularmente intrigante é um fémur de urso descoberto em 1995, na Eslovênia, junto de uma fogueira do período musteriense: um tubo com quatro furos em escala diatónica, uma flauta. No sítio croata de Krapina datado de cerca de 130.000 anos atrás, entre muitos itens, uma rocha calcária partida foi escavada por Dragutin Gorjanović-Kramberger entre 1899 e 1905.

A rocha foi analisada por especialistas que propuseram que ela foi coletada não para processamento adicional pelos neandertais, mas sim por causa de seus atributos estéticos, sugerindo que os neandertais eram capazes de incorporar objetos simbólicos em sua cultura. Em 2015, Prof Frayer publicou um artigo sobre um conjunto de garras de águia-rabalva do mesmo sítio Neanderthal que incluia marcas de cortes feitos para transformá-las em uma jóia, provavelmente, um colar. Em outros locais, os pesquisadores descobriram que eles coletaram conchas e usaram pigmentos em conchas.

Extinção

A extinção do homem de Neandertal não está bem esclarecida. Sobre esse tema existem várias hipóteses, todas elas baseadas no pressuposto da competição com o Homo sapiens, mais eficaz na sobrevivência da espécie, mostrando-se irrelevante a extinção por motivos climáticos.

Alguns autores consideram que o facto de a cultura material do homem de Neandertal não ter evoluído durante cerca de 200 000 anos se deve a uma inteligência prática de baixo teor, apesar de ter um cérebro maior do que o do homem moderno, embora pouco se saiba quanto à organização fisiológica e neurológica dos neandertais; não obstante, estudos realizados em 2017 comprovaram que o homem de Neandertal detinha bom conhecimento das plantas medicinais e as suas propriedades anti-inflamatórias e analgésicas, fazendo ainda o uso de antibióticos 40 mil anos antes de ser descoberta a penicilina.

Outros assinalam a baixa mobilidade das suas populações, a reduzida área geográfica onde se estabeleceram, bem como a sua constituição óssea, de secção circular, adaptada ao esforço mas pouco adequada a uma locomoção ágil, vantagem esta do "Homo sapiens", que tem ossos de secção oval. A inércia das populações neandertais seria causada pela falta de estímulos de quem vive num nicho ecológico que apenas garantia as necessidades básicas de sobrevivência, num meio ambiente sem grandes alterações climáticas.

Outros autores apontam a fraca variedade genética decorrente da consanguinidade, devida a um crescente isolamento social e comunitário, possivelmente motivado por contactos hostis com o homem moderno. Outros autores ainda aventam a hipótese de o tempo de gestação ser maior no caso dos neandertais (talvez 12 meses em vez de 9, como no caso do Homo sapiens), o que explicaria uma maior dificuldade de se reproduzirem.

Por outo lado, segundo Colin Tudge, o homem moderno teria um comportamento prospetivo mais vantajoso na gestão dos recursos naturais, como a proto-agricultura. A manutenção das populações cinegéticas e o consumo de vegetais como complemento alimentar tornava-os menos dependentes da carne. O homem de Neandertal seria um caçador puro que teria depredado os seus recursos, o que teria contribuído para a sua extinção.

De acordo com estudo publicado em julho de 2012 pela revista da Academia Americana de Ciências, a PNAS, a extinção dos neandertais teria sido originada mais pela migração do Homo Sapiens do que por efeitos climáticos. A prova disso fundamenta-se na descoberta de cinzas com vestígios de corpos de neandertais vítimas de uma grande erupção vulcânica ocorrida há 40 000 anos, que atingiu todo o continente europeu. Esses vestígios eram em quantidade inferior às de outras amostras, evidenciando assim que a população começou a declinar antes da erupção.

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