William Shakespeare
“Somos feitos da mesma matéria dos sonhos” – Próspero, A Tempestade
Poucas figuras na história da humanidade conseguem, quatro séculos depois da sua morte, continuar a ser representadas, lidas, citadas e reinventadas em todas as línguas do planeta. William Shakespeare (1564-1616) não é apenas o maior dramaturgo da língua inglesa: ele é, talvez, o maior escritor que já existiu. Neste artigo gigante, vamos mergulhar fundo na vida, na obra, no tempo e no legado do Bardo Imortal, ligando-o sempre que possível ao vasto contexto histórico que o Canal Fez História já explorou em dezenas de artigos.
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Nascido em Stratford-upon-Avon em abril de 1564 (a data exata é desconhecida, mas foi batizado no dia 26), William era o terceiro filho de John Shakespeare, um luveiro e comerciante que chegou a ser prefeito da cidade, e de Mary Arden, de família abastada. Casou-se aos 18 anos com Anne Hathaway (ela tinha 26) e teve três filhos: Susanna e os gémeos Hamnet e Judith. Hamnet morreu aos 11 anos – uma dor que muitos acreditam ter ecoado em obras como Hamlet.
Entre 1585 e 1592 acontece o famoso “período perdido”. Ninguém sabe ao certo o que ele fez. Há quem diga que fugiu de Stratford acusado de caça ilegal, que foi professor, soldado ou até que viajou pela Europa. O facto é que, em 1592, já estava em Londres e era atacado por Robert Greene como um “corvo enfeitado com as nossas penas” – o primeiro registo de Shakespeare como dramaturgo profissional.
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Para entender Shakespeare é preciso entender o seu tempo. Ele viveu exatamente na transição entre o final do [Renascimento c. 1300-1600] e a [Reforma Protestante e Contrarreforma 1517]. Isabel I reinava desde 1558, depois do caos religioso de Maria Tudor. A Inglaterra acabava de derrotar a Invencível Armada espanhola (1588) e vivia um momento de orgulho nacional.
Londres crescia a olhos vistos: de 100 mil habitantes em 1550 para quase 200 mil em 1600. O teatro explodia. Companhias como os Lord Chamberlain’s Men (da qual Shakespeare era acionista) atuavam em teatros como The Theatre e, depois, o mítico Globe – construído em 1599 com madeira de um teatro anterior desmontado às escondidas no meio da noite.
A Rainha Isabel I, a “Rainha Virgem”, era uma verdadeira fã de teatro. Shakespeare escreveu várias peças que, de forma subtil, elogiavam a monarquia Tudor – veja Henrique VIII ou as peças históricas inglesas.
As obras: tragédias, comédias, histórias e sonetos
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As grandes tragédias
- Hamlet (c. 1600) – talvez a peça mais famosa da humanidade
- Otelo (1603) – ciúme, racismo e manipulação
- Rei Lear (1605) – loucura, poder e ingratidão filial
- Macbeth (1606) – ambição desmedida e culpa
As comédias brilhantes
- Sonho de uma Noite de Verão
- Como Vos Aprouver
- Noite de Reis
- A Megera Domada
Peças históricas (as “Histórias”)
Shakespeare escreveu um ciclo completo sobre os reis ingleses, desde Ricardo II até Henrique VIII. São verdadeiras aulas de história dramatizada – e muitas vezes usadas como propaganda política.
Os Sonetos
154 poemas absolutamente geniais publicados em 1609. Dirigidos a um “fair youth” (um jovem belo), a uma “dark lady” e cheios de reflexões sobre tempo, morte, amor e arte.
“Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate…”
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Shakespeare não viveu isolado. Enquanto escrevia A Tempestade, os ingleses começavam a colonizar a América (Jamestown, 1607). Enquanto escrevia António e Cleópatra, o mundo ainda digeria a [União Ibérica 1580-1640] entre Portugal e Espanha, liderada por [Felipe II da Espanha e D. Sebastião de Portugal]. A [Reforma e Contrarreforma] fervia na Europa. A [Peste Negra 1347-1351] ainda era memória recente e Londres sofreria outra grande epidemia em 1603.
Ele leu Plutarco (traduzido por Thomas North), Ovídio, Holinshed e Montaigne. Bebeu da tradição clássica grega ([Aristóteles], [Platão]) e romana ([Sêneca], [Plauto]). O seu humanismo é puro [Renascimento c. 1300-1600].
O Globe era aberto, com o céu como teto. A plateia ficava de pé no chão (os famosos “groundlings” que pagavam 1 penny). Os nobres sentavam-se nas galerias. Não havia cenários: tudo era sugerido pela palavra. E Shakespeare escrevia para isso – “uma peça de duas horas pode conter o cinto de um rei”, como diz o coro de Henrique V.
Shakespeare morreu a 23 de abril de 1616 – a mesma data (calendário juliano) em que morreria Cervantes. Tinha 52 anos. Foi enterrado na igreja da Santíssima Trindade em Stratford, com a famosa inscrição:
Good friend, for Jesus’ sake forbear, To dig the dust enclosed here. Blest be the man that spares these stones, And cursed be he that moves my bones.
Desde o século XIX que existem teorias conspirativas: Francis Bacon, Christopher Marlowe, o Conde de Oxford… Mas a esmagadora maioria dos académicos defende que sim, foi mesmo o homem de Stratford.
- Criou mais de 1700 palavras novas em inglês
- Frases que usamos todos os dias: “break the ice”, “wild goose chase”, “in a pickle”, “the world is my oyster”
- Influenciou [Voltaire], Goethe, Freud, Marx, Nelson Mandela, Bollywood, anime japonês…
- Há traduções em klingon, esperanto e mais de 100 línguas
A primeira tradução brasileira foi Hamlet por Domingos Ramos em 1866. Hoje temos traduções magistrais de Millôr Fernandes, Barbara Heliodora e muitos outros. O Globo de Londres já veio ao Brasil, e festivais como o de Curitiba mantêm a chama viva.
Quando nasceu e morreu Shakespeare?
Quantas peças escreveu?
Qual é a peça mais curta e a mais longa?
Ele realmente escreveu tudo sozinho?
Qual é a melhor peça para começar?
Aqui no Canal Fez História temos artigos que ajudam a contextualizar tudo:
- [Renascença c. 1300-1600] – o grande movimento cultural que moldou o Bardo
- [Isabel I da Inglaterra] – a rainha que reinou no auge da sua carreira
- [Reforma Protestante e Contrarreforma 1517] – o turbilhão religioso da época
- [Explorações Portuguesas e o advento do tráfico de escravos no Atlântico c. 1400-1800] – o mundo que começava a se conectar
- [Era Vitoriana e o Império Britânico 1837-1901] – quando Shakespeare se tornou símbolo nacional inglês
E se quiser saber mais sobre outras figuras geniais da humanidade, veja a nossa coleção de biografias: [Leonardo da Vinci], [Michelangelo], [Galileu Galilei], [Isaac Newton], [Voltaire], [Johannes Gutenberg]…
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Porque a História não é só passado – é a matéria dos nossos sonhos.
William Shakespeare vive. E viverá enquanto houver seres humanos a amar, odiar, rir e chorar.