“O Brasil deve ser governado por brasileiros e para brasileiros.”
Uma frase que resume o estilo discreto, pragmático e profundamente nacionalista de Venceslau Brás Pereira Gomes, o 9.º presidente da República do Brasil (1914–1918).
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Quem foi Venceslau Brás? Um rápido perfil
Nascido a 26 de fevereiro de 1868 em Brasópolis (antiga São Caetano da Venda Grande), no sul de Minas Gerais, Venceslau era filho de Francisco Brás Pereira Gomes, um rico fazendeiro de café, e de Isabel Cândida da Costa Pereira. Formado em Direito em 1890 pela Faculdade de Direito de São Paulo (o famoso Largo São Francisco), iniciou a carreira política ainda muito jovem.
- Deputado estadual (1892–1898)
- Secretário do Interior de Minas Gerais
- Deputado federal (1900–1909)
- Governador de Minas Gerais (1909–1910)
- Vice-presidente na chapa de Hermes da Fonseca (1910–1914)
- Presidente da República (1914–1918)
Casado com Maria Carneiro Santiago, teve quatro filhos. Morreu em 15 de maio de 1966, aos 98 anos, sendo até hoje o presidente brasileiro que mais viveu.
O Brasil que Venceslau herdou: a República do Café-com-Leite
Quando Hermes da Fonseca deixou o poder em 15 de novembro de 1914, o país vivia o auge do sistema oligárquico conhecido como “política café-com-leite”. São Paulo e Minas Gerais se revezavam no poder. Depois do paulista Rodrigues Alves, do mineiro Afonso Pena, novamente do paulista Rodrigues Alves (que morreu antes de tomar posse em 1918) e do marechal Hermes (uma interrupção), era a vez de Minas voltar ao Catete.
Venceslau foi eleito com 532 000 votos contra 103 000 do candidato Rui Barbosa – a maior vitória eleitoral da Primeira República até então.
Os primeiros desafios internos
A Revolta do Contestado (1912–1916)
Ainda vice-presidente, Venceslau acompanhou de perto a repressão ao movimento messiânico liderado pelo monge José Maria no sul do país. A guerra entre Paraná e Santa Catarina pelo território do Contestado deixou cerca de 20 000 mortos. Como presidente, coube-lhe encerrar o conflito com a vitória das forças federais.
A seca de 1915 no Nordeste
Uma das maiores secas do século XX. Venceslau criou a Inspetoria de Obras Contra as Secas (atual DNOCS), primeira instituição permanente de combate às secas.
Valorização do café e a crise de 1914
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, os mercados europeus fecharam-se para o café brasileiro. O governo Venceslau criou o Convênio de Taubaté ampliado, comprando estoques e mantendo o preço artificialmente alto – medida que salvou os barões do café, mas gerou inflação.
A Primeira Guerra Mundial e o Brasil
O grande teste do governo Venceslau foi a Primeira Guerra Mundial (1914–1918).
Neutralidade inicial
Como quase toda a América Latina, o Brasil declarou neutralidade em agosto de 1914. Mas os laços econômicos com a Inglaterra e a França eram fortes.
Ataques alemães e a entrada na guerra
- 5 de abril de 1917 – torpedeamento do navio Paraná
- 11 de abril – afundamento do Tijuca
- 23 de maio – afundamento do Lapa
A 26 de outubro de 1917, Venceslau Brás assinou o decreto que colocava o Brasil em “estado de guerra” contra a Alemanha. Foi a primeira vez que o Brasil participou de um conflito fora da América do Sul.
A Marinha brasileira enviou a Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG), comandada pelo contra-almirante Alexandrino de Alencar, que patrulhou o Atlântico e o Mediterrâneo. O Brasil também enviou uma missão médica e aviadores que lutaram na França.
A Gripe Espanhola no Brasil
No final do mandato, entre setembro de 1918 e janeiro de 1919, o Brasil foi devastado pela pandemia de gripe espanhola. Estima-se que morreram entre 300 000 e 500 000 brasileiros – cerca de 1,5% da população da época. Rio de Janeiro, então capital, virou uma cidade-fantasma. O próprio Venceslau adoeceu, mas sobreviveu.
Realizações do governo Venceslau Brás
Apesar das crises, o governo deixou marcas importantes:
- Criação do Código Civil Brasileiro de 1916 (Lei n.º 3.071/1916), em vigor até hoje com alterações
- Primeira lei de proteção ao trabalhador rural (1916)
- Construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil até Porto Esperança (MS)
- Fundação do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (1915)
- Criação da Escola de Aprendizes Marinheiros em vários estados
- Primeira linha telegráfica ligando o Brasil à Europa (via Açores)
Curiosidades que quase ninguém conta
- Venceslau era canhoto – raridade entre presidentes da época.
- Proibiu o jogo do bicho em 1917 (decreto durou pouco).
- Criou o hino “Ouviram do Ipiranga” como hino nacional oficial (antes era apenas o hino da Proclamação).
- Seu discurso de posse foi o mais curto da história republicana até então: apenas 12 minutos.
- Recebeu a visita do rei Alberto I da Bélgica em 1920, já ex-presidente, em sua fazenda em Minas.
A sucessão e o fim da República Velha
Em 1918, a oligarquia mineira queria continuar no poder, mas São Paulo exigia o cumprimento do acordo café-com-leite. Venceslau apoiou a candidatura de Rodrigues Alves, que venceu, mas morreu de gripe espanhola antes da posse. Delfim Moreira (vice) assumiu interinamente, e depois veio Epitácio Pessoa – quebrando o pacto e iniciando o fim da Primeira República.
Legado de Venceslau Brás
Muitos o consideram um presidente “cinzento”. Não teve o carisma de Getúlio, o brilho de JK ou a polêmica de Jânio. Mas governou o Brasil num dos períodos mais difíceis do século XX: guerra mundial, pandemia, crise econômica e revoltas internas – e entregou o país inteiro, unido e com as contas relativamente em ordem.
Como ele mesmo disse na mensagem final ao Congresso:
“Deixo o governo sem ter feito inimigos, sem ter feito fortuna, sem ter feito outra coisa que não fosse o meu dever.”
Perguntas Frequentes sobre Venceslau Brás
Qual foi o partido de Venceslau Brás?
Pertencia ao Partido Republicano Mineiro (PRM), o grande dominador da política de Minas na Primeira República.
Venceslau Brás entrou na guerra por pressão dos Estados Unidos?
Não. A decisão foi tomada antes mesmo da entrada norte-americana (abril de 1917). Os ataques alemães a navios brasileiros foram o gatilho principal.
Ele foi o presidente mais velho da história?
Não. O título ainda pertence a José Sarney, que terminou o mandato com 78 anos. Venceslau tinha 50 anos ao deixar o cargo.
Existe alguma cidade ou rodovia com o nome dele?
Sim! A Rodovia Presidente Venceslau (SP-270) em São Paulo e a cidade de Presidente Venceslau (SP), fundada em 1920.
Por que ele não tentou a reeleição?
Na Primeira República não havia reeleição imediata. Além disso, o acordo café-com-leite impedia.
Quer saber mais sobre a Primeira República?
Explore outros presidentes do período aqui no Canal Fez História:
- Prudente de Morais – o primeiro civil
- Campos Sales – o criador da política dos governadores
- Afonso Pena – o mineiro anterior
- Nilo Peçanha – o sucessor interino
- Delfim Moreira – o vice que assumiu em 1918
E se quiser entender o contexto mundial da época, não deixe de ler:
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A história do Brasil não começa em 1500 nem termina em 1889. Ela passa por figuras como Venceslau Brás – discretas, eficientes e essenciais.
Até o próximo artigo!
Equipe Canal Fez História
















