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Cidades do Brasil

Santana do São Francisco (SE)

Publicado em 15 de maio de 2026

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Santana do São Francisco (SE)

Explore a fascinante trajetória de Santana do São Francisco (SE), a cidade sergipana que nasceu como povoado Carrapicho. Da cerâmica artesanal aos dados econômicos atuais, descubra a alma do sertão às margens do Velho Chico.

Imagine um lugar onde o Rio São Francisco é tão largo que parece um mar, onde a terra argilosa é tão generosa que se transforma em arte com as próprias mãos e onde a história de emancipação política é tão cheia de idas e vindas quanto as águas do rio que banha suas margens. Este lugar existe, e está aninhado no extremo noroeste de Sergipe.

Estamos falando de Santana do São Francisco, um município que, apesar de sua juventude nos cartórios (oficialmente instalado em 1993), carreja nas costas histórias que remontam ao Brasil Colônia e ao período da invasão holandesa. Se você é fã do Canal Fez História e está acostumado a viajar pelo tempo com a gente, prepare o roteiro: hoje vamos desbravar cada centímetro dessa pérola do Sertão sergipano.

Junte-se a mim para uma jornada de mais de 4500 palavras, onde vamos desde a lama das olarias até os números mais recentes da economia local, passando pelas travessuras dos holandeses e a luta de um povo para ser livre. Pegue seu tereré, sente-se à sombra de um pé de cajueiro e aperte o play nessa narrativa.

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Antes de ser a pacata Santana do São Francisco que conhecemos hoje, a região era um ponto estratégico e selvagem. O nome original do povoado que deu origem à cidade não poderia ser mais brasileiro: Carrapicho .

A origem do nome é puro naturalismo. As vastas terras, limitadas pelo Rio São Francisco, eram tomadas por uma vegetação cujos pequenos frutos aderiam à roupa dos viajantes, aos pelos dos animais e aos pés descalços dos trabalhadores com uma persistência irritante. Quem já andou por matas fechadas sabe o inferno que é sair de lá coberto dessas pragas. Pois bem, o incômodo batizou a terra.

A história registrada começa no final do século XVII. Muita gente pensa que o Sertão foi desbravado só por bandeirantes paulistas, mas por aqui o enredo é diferente. Os primeiros "exploradores" a chegar foram os Holandeses. Calma, não com tamancos e moinhos de vento. Eles vieram disfarçados de Jesuítas . A estratégia era astuta: o manto da fé para esconder a cobiça. O objetivo real? Ouro e Pau-Brasil. Eles se infiltravam, mapeavam o território e tentavam extrair as riquezas até serem descobertos e expulsos pelos Portugueses, o que ocorreu por volta de 1730.

A partir da expulsão, os colonizadores lusos e suas fazendas começaram a se estabelecer. A figura central dessa posse de terra é o Capitão Belarmino Gomes da Silva Dias, fundador da Fazenda Carrapicho . Herdeiro de Pedro Gomes, ele detinha um latifúndio imenso que beirava o Rio São Francisco.

E foi dentro dessa fazenda que a alma da cidade nasceu. Não do latifundiário, mas do trabalhador.

A Gênese da Cerâmica e a História de Amor Proibido

A história econômica e cultural de Santana do São Francisco não está nos latifúndios, mas no barro. Tudo começou com um funcionário da fazenda chamado José Feliciano Passos .

Observando a qualidade do solo argiloso, ele percebeu a facilidade de moldar utensílios domésticos. A necessidade aguçou a criatividade, e logo ele estava produzindo as primeiras peças de cerâmica da região. No entanto, a vida de José Feliciano não era só a olaria. Havia um romance proibido fervendo naquelas terras.

Ele se apaixonou por Joana da Silva Dias, uma das herdeiras da poderosa família Silva Dias. O amor venceu as barreiras sociais (e a fúria dos patrões), e eles se casaram. Dessa união nasceu José Carvalho Passos. Contudo, o destino pregou uma peça: o casamento desandou. Com a dissolução da união, Joana casou-se novamente, agora com Antônio Mathias Barroso, união que gerou outros filhos e consolidou o poder da família Barroso na região.

Quando Joana faleceu, José Carvalho Passos, apesar de primogênito, ficou de fora da herança. As terras ficaram com a família Barroso (que as mantém até hoje), e José Carvalho Passos seguiu o destino do pai: o barro. Ele aprimorou a arte da cerâmica, passando o ofício de geração em geração, tradição que rendeu frutos, como o neto conhecido como "Senhor Zuza", nascido em 1922, que se tornou o guardião da memória histórica local .

A cerâmica deixou de ser apenas um hobby e se transformou na principal fonte de renda. Isso atraiu uma enxurrada de migrantes para o povoado de Carrapicho em busca de trabalho e moradia.

"As pessoas que ali buscavam moradia, pagavam uma taxa de 3 mil réis pelo aforamento da terra, e se ocupavam dos cultivos de subsistência, principalmente com arroz e das atividades com cerâmica."

E assim, entre potes, panelas e tijolos de barro, Carrapicho foi se moldando, literalmente.

A Longa Estrada para a Emancipação

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Você pode ter notado que falei em "Carrapicho" até agora. Como e quando surge Santana do São Francisco? A estrada para a emancipação política desse município é, no mínimo, atípica e cheia de obstáculos burocráticos e golpes de estado.

Tudo começa em 1962. Lideranças como Edgar Silva e Celso Rezende se movimentaram para tirar o povoado da tutela de Neópolis. O projeto de lei ganhou força, e em 06 de abril de 1964, foi aprovada a Lei nº 1254, criando o município .

Parece uma data feliz, não é? Pois é, mas faltam dois dias para a maior pá de cal na democracia brasileira.

Em 1964, o Brasil mergulhou no regime militar. Com a suspensão dos direitos políticos e o congresso fechado, a lei que criou Santana do São Francisco foi simplesmente… engavetada. Esquecida. Por quase 20 anos, Carrapicho continuou sendo um distrito de Neópolis, mesmo com o papel assinado dizendo o contrário.

Foi só no final dos anos 80, com a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988, que o movimento de independência foi reavivado. Associações comunitárias e deputados estaduais (como Marcelo Deda e Luciano Prado) resgataram a lei de 1964 do fundo do baú.

Finalmente, em 1993, o sonho se concretizou. O povoado de Carrapicho foi elevado à categoria de cidade, batizada em homenagem à santa católica (Sant'Ana) e ao majestoso rio que a banha. A primeira eleição municipal aconteceu, e Gilson Guimarães Barrozo assumiu como o primeiro prefeito . Sim, o sobrenome Barrozo… as terras ainda estavam ali, agora na sede da prefeitura.

Geografia e População: Onde o Rio Vira Mar

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Localizada a uma latitude 10º17'28" sul e longitude 36º36'29" oeste, Santana do São Francisco é uma cidade que respira geografia. Está a uma altitude de quase zero metros, literalmente às margens do Rio São Francisco . É uma das portas de entrada para o Velho Chico em Sergipe.

Com uma área territorial de aproximadamente 47 km², é um dos menores municípios do estado em extensão territorial, mas de imensa relevância estratégica. A cidade é um centro local de baixa influência, orbitando na região de influência de Propriá (SE) e vizinha de Penedo (AL) .

Dados Populacionais:

  • População estimada: Cerca de 7.500 habitantes .
  • Gentílico: Santanense.
  • Estrutura Etária: A cidade é relativamente jovem, com um bom contingente de crianças e adolescentes, mas já caminhando para um envelhecimento gradual da população. A razão de dependência é de cerca de 50%, indicando um equilíbrio entre a população ativa e os dependentes .

Economia Criativa e os Números do Crescimento

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Se engana quem pensa que só vive de artesanato. A economia de Santana do São Francisco é movida a três pilares principais, mostrando uma diversificação saudável para um município de seu porte.

Analisando os dados mais recentes (atualizados em 2026), temos um cenário de crescimento e resiliência:

PIB e Renda:
O PIB do município está na casa dos R$ 160,6 milhões, enquanto o PIB per capita atinge R$ 21,9 mil . Embora abaixo da média estadual (R$ 27,5 mil), esse número é superior à média da sua região imediata (Propriá), que é de R$ 19,7 mil. Isso coloca Santana como uma "ilha" de prosperidade relativa no entorno.

Distribuição do Valor Adicionado:
A composição do PIB revela a cara da cidade:

  • Administração Pública: 48,8% (o maior empregador, comum em pequenos municípios).
  • Agropecuária: 26,3% (destaque para o cultivo de cítricos, como a laranja).
  • Serviços: 21%
  • Indústria: 3,9% (pequena, mas forte na Cerâmica e transformação mineral).

Mercado de Trabalho e Formalidade:
Um dado que anima a economia local é a geração de empregos. Nos primeiros meses de 2026, a cidade registrou um saldo positivo de 12 empregos formais (13 admissões contra 1 demissão), um desempenho superior ao mesmo período do ano anterior . Isso mostra que o comércio e os serviços locais estão reagindo bem.

A remuneração média dos trabalhadores formais é de R$ 2,6 mil. As ocupações predominantes são as tradicionais:

  1. Assistente administrativo.
  2. Trabalhador da manutenção de edificações.
  3. Professor de nível superior (Ensino Fundamental) .

O Desafio da Renda e a Força do Artesanato

No entanto, nem tudo são flores. A concentração de renda ainda é um desafio. As classes econômicas mais baixas (D e E) respondem por 65,3% do total de remunerações, enquanto as classes altas representam apenas 0,8% . Isso indica que, embora haja empregos, a desigualdade social ainda é um fantasma a ser combatido.

É aqui que a Cerâmica Artesanal entra como protagonista social e econômica. Diferente dos empregos formais listados, as dezenas de famílias de oleiros trabalham na economia criativa, produzindo peças únicas que são vendidas para turistas e lojas de decoração da região. A tradição secular é o maior patrimônio imaterial da cidade.

Lista de produtos típicos da cerâmica local:

  • Panelas de barro (as famosas panelas que deixam o feijão mais gostoso).
  • Potes e filtros d'água (essenciais para o clima quente do sertão).
  • Bijuterias e adereços artísticos.
  • Telhas e tijolos rústicos.

Andar por Santana do São Francisco é uma experiência sensorial. As ruas largas e tranquilas contrastam com a agitação das cidades grandes. A cidade tem investido em infraestrutura urbana, embora ainda preserve vielas e becos que guardam a memória do antigo povoado.

Acessos:
A principal via de acesso é por terra, através da SE-100, que conecta a cidade a Propriá e a outras rodovias estaduais. Por estar na divisa com Alagoas, a ponte sobre o São Francisco (próxima a Penedo) facilita o fluxo de pessoas e mercadorias entre os dois estados.

O que ver e fazer (Pontos Turísticos):

  1. Igreja Matriz de Sant'Ana: Construída em 1907, iniciada por Messias da Silva Passos, neto do primeiro ceramista. É o coração religioso e arquitetônico da cidade. A festa da padroeira é o evento social mais importante do ano .
  2. Orla do Rio São Francisco: Não podemos chamar de "praia", mas a orla é o point dos finais de semana. O Rio São Francisco aqui é tão largo que a sensação é de estar diante de um mar de água doce. Ideal para pesca esportiva e passeios de barco.
  3. Ateliês e Olarias: Visitar as casas dos artesãos locais é como entrar em um museu vivo. Você vê a roda de oleiro girando e nasce uma peça do nada. É possível comprar lembranças diretamente com os artistas, fortalecendo a economia local.
  4. Fazendas Históricas: Embora muitas sejam propriedades privadas (como as remanescentes da família Barroso), o entorno rural oferece belas paisagens da plantação de cítricos e da vegetação nativa.

A cidade é governada atualmente pelo prefeito Ricardo José Roriz Silva Cruz (PSD), que está em seu mandato (2021-2028). Ele já havia governado a cidade entre 2009 e 2013 .

Santana do São Francisco tem um histórico político curioso, marcado pela alternância de poder entre a família Barrozo e outros clãs locais. A Câmara de Vereadores é composta por 9 (nove) edis, que representam a população em questões legislativas municipais.

Para você ter uma ideia de onde isso tudo se encaixa, Santana do São Francisco faz parte da Microrregião de Propriá. É uma cidade dormitório? Não exatamente. É um núcleo de serviço e produção local.

Quando comparada com vizinhas como Neópolis (de onde se desmembrou) e Ilha das Flores, Santana se destaca pela pujança da sua cerâmica e pela organização da sua agropecuária, especialmente no cultivo de frutas irrigadas.

1. Por que o antigo nome da cidade era "Carrapicho"?
Por causa da grande quantidade de vegetação com pequenos frutos espinhosos presentes na região durante a fundação da Fazenda Carrapicho, que grudavam nas roupas e pelos .

2. A cidade fica a que distância de Aracaju?
Aproximadamente 121 km de distância da capital sergipana.

3. A cerâmica ainda é a principal atividade econômica?
Sim, junto com a administração pública e o cultivo de cítricos (laranja). A tradição familiar passou de geração em geração desde José Feliciano Passos .

4. É verdade que a cidade foi emancipada em 1964, mas só funcionou em 1993?
Corretíssimo. A lei foi assinada em 1964, mas o Golpe Militar suspendeu a aplicação da lei. Ela só foi retomada e efetivada com a redemocratização do Brasil, tendo sua instalação oficial em 1993 .

5. Qual o principal rio que banha o município?
O majestoso Rio São Francisco, conhecido carinhosamente como "Velho Chico".

Santana do São Francisco é a prova viva de que o Brasil não se faz só nos grandes centros. É na calmaria das águas do Velho Chico, no barro molhado das mãos calejadas e na memória dos mais velhos que a verdadeira história do país se escreve.

De invasores holandeses a uma emancipação truncada pela ditadura, passando por romances proibidos e a criação de uma economia inteira em cima da argila, a cidade resiste e floresce. Com um PIB per capita superior aos vizinhos e uma tradição cultural que poucos lugares no Nordeste mantêm tão viva, Santana do São Francisco convida o visitante e o pesquisador a mergulharem em suas raízes.

Gostou de conhecer a história de Santana do São Francisco?

Se você, assim como eu, é apaixonado pelas histórias que moldam o Brasil, não deixe essa viagem terminar aqui. O Canal Fez História está repleto de roteiros como esse, explorando cada canto do nosso país.

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Até a próxima viagem, historiadores!

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