Por Canal Fez História
Explore a vida do homem que, partindo do deserto árabe, fundou uma das maiores religiões do planeta e criou um império que se estenderia da Península Ibérica à Índia.

“Eu sou o selo dos profetas. Não haverá profeta depois de mim.”
— Maomé ibn Abdullah (570–632 d.C.)

Quem foi Maomé? Uma Introdução Necessária

Muhammad ibn Abdullah, mais conhecido no mundo ocidental como Maomé, nasceu por volta do ano 570 d.C. em Meca, numa Arábia pré-islâmica marcada por politeísmo, comércio de caravanas e guerras tribais incessantes. Órfão cedo, criado pelo avô e depois pelo tio Abu Talib, pertencia ao clã dos Haxemitas, da poderosa tribo dos Coraixitas — os guardiões da Caaba.

A sua vida pode dividir-se em três grandes fases:

  1. A juventude e o casamento com Khadija (570–610)
  2. A revelação e a pregação em Meca (610–622)
  3. A Hégira, Medina e a construção do Estado islâmico (622–632)

Vamos mergulhar fundo em cada uma delas.

A Arábia Antes de Maomé: O Contexto que Tornou o Islão Possível

Para entender Maomé, é preciso conhecer o mundo em que ele nasceu. A Península Arábica do século VI era um mosaico de tribos beduínas, cidades-oásis comerciais e dois grandes impérios exauridos: o Império Bizantino (herdeiro da Civilização Romana) e o Império Sassânida (sucessor do Império Persa Aquemênida e do Império Parta). Entre eles, a Arábia era uma terra de ninguém — perfeita para o surgimento de uma nova força.

  • As rotas de comércio de incenso e especiarias passavam por Meca e Yathrib (futura Medina).
  • A Caaba já era um santuário antigo, repleto de 360 ídolos.
  • O hanifismo — crença num Deus único — já circulava entre alguns árabes influenciados pelo Judaísmo e pelo Cristianismo.

Se quiser aprofundar o cenário religioso e político do Médio Oriente antigo, veja os artigos sobre o Império Sassânida (224-651 d.C.), o Império Parta (247 a.C.–224 d.C.) e o Império Aquemênida (c. 550-330 a.C.).

A Primeira Revelação: A Noite do Destino (Laylat al-Qadr)

Em 610 d.C., com 40 anos, Maomé costumava retirar-se para meditar na caverna de Hira, no monte próximo de Meca. Numa dessas noites — a famosa Noite do Destino — o arcanjo Gabriel (Jibril) apareceu-lhe e ordenou:

“Iqra!” (Recita/Lê!)

As primeiras palavras reveladas foram os versículos iniciais da Sura 96 (Al-Alaq):

“Recita, em nome do teu Senhor que criou,
Criou o homem de um coágulo de sangue.
Recita, pois o teu Senhor é o Mais Generoso,
Que ensinou pela pena,
Ensinou ao homem o que este não sabia.”

Assustado, Maomé correu para casa. A sua esposa Khadija e o primo Waraka ibn Nawfal (cristão nestoriano) confirmaram: tratava-se da mesma entidade que falara a Moisés. Estava iniciado o Alcorão.

Os 13 Anos de Meca: Perseguição e Resistência

Durante 13 longos anos, Maomé pregou em Meca o monoteísmo puro (Tawhid). Os Coraixitas, que lucravam com o culto pagão da Caaba, viram-no como ameaça económica e política.

  • 613–615: Primeira emigração de muçulmanos para a Abissínia (Etiópia cristã) — veja o artigo sobre a Civilização Etíope (c. 980 a.C.–940 d.C.) e o Reino de Axum.
  • 619: “Ano da Tristeza” — morrem Khadija e Abu Talib. Maomé perde proteção tribal.
  • 620: Viagem noturna e ascensão aos céus (Isra e Mi’raj).

A perseguição intensificou-se. A solução veio de Yathrib (Medina), onde tribos rivais Aws e Khazraj convidaram Maomé para arbitrar os seus conflitos.

A Hégira (622 d.C.): O Marco Zero do Calendário Islâmico

Em setembro de 622, Maomé e Abu Bakr fugiram de Meca. A Hégira (emigração) marca o Ano 1 do calendário muçulmano. Em Medina, Maomé deixou de ser apenas profeta: tornou-se chefe político, juiz e comandante militar.

Foi em Medina que se redigiu a Constituição de Medina, um dos primeiros documentos escritos de convivência entre muçulmanos, judeus e pagãos — um marco de pluralismo para a época.

As Grandes Batalhas que Consolidaram o Islão

BatalhaAnoResultadoImportância
Badr624Vitória muçulmana (313 vs 1000)Primeira grande vitória; “Dia da Distinção”
Uhud625Derrota tática, mas sobrevivênciaLição de obediência
Trincheira (Ahzab)627Vitória defensiva com o famoso fossoFim da ameaça dos Coraixitas e aliados judeus
Conquista de Meca630Entrada pacífica; destruição dos ídolosConsolidação do Islão na Arábia

Em 630, Maomé regressou a Meca como conquistador misericordioso. Perdoou quase todos os antigos inimigos. A Caaba foi purificada dos ídolos. Em 632, no seu sermão de despedida em Arafat, deixou as célebres palavras:

“Não vos deixei nada senão o Livro de Deus e a Sunna do Seu Profeta.”

Morreu a 8 de junho de 632, com 62 anos, em Medina, nos braços da sua esposa Aisha.

Maomé e as Outras Religiões Abrahâmicas

Maomé via-se como o último de uma longa cadeia de profetas que incluía:

O Alcorão reconhece a Torá, os Salmos e o Evangelho como revelações anteriores, mas afirma que foram corrompidos ao longo do tempo. Daí o conceito de “Povos do Livro” (Ahl al-Kitab) — judeus e cristãos tinham estatuto especial no Estado islâmico.

O Legado de Maomé: Do Deserto ao Mundo

Em apenas 23 anos de pregação:

  • Unificou a Península Arábica (algo nunca conseguido antes).
  • Criou uma nova civilização que, em menos de um século, derrubaria os impérios Sassânida e parte do Bizantino.
  • Deixou o Alcorão — texto que permanece inalterado até hoje.
  • Estabeleceu a Sharia como base ética e jurídica.

Se quiser ver como esse império se expandiu explosivamente, leia sobre o Califado Omíada e o Califado Abássida.

Perguntas Frequentes sobre Maomé

1. Maomé escreveu o Alcorão?
Não. Ele era iletrado (ummi). Ditava as revelações aos escribas (como Zaid ibn Thabit). A compilação final ocorreu sob o califa Uthman (644–656).

2. Quantas esposas teve Maomé?
11 ou 13, dependendo da contagem. Após a morte de Khadija, os casamentos tiveram quase todos caráter político ou humanitário (viúvas de guerra).

3. Maomé foi guerreiro ou pacifista?
Ambos. Pregou a paciência em Meca (13 anos sem revidar). Em Medina, liderou ou autorizou cerca de 80 expedições, mas sempre com regras rigorosas (não matar mulheres, crianças, idosos, clérigos, nem cortar árvores).

4. Qual é a diferença entre Maomé e Jesus na visão islâmica?
Jesus (Isa) é um dos maiores profetas, nasceu de virgem, fez milagres, mas não é Deus nem filho de Deus. Maomé é o último mensageiro, o “selo dos profetas”.

5. Por que os muçulmanos dizem “que a paz e bênçãos de Deus estejam sobre ele” ao mencionar Maomé?
É uma obrigação religiosa (salawat). O Alcorão ordena: “Deus e Seus anjos abençoam o Profeta. Ó vós que credes! Abençoai-o e saudai-o com paz.” (33:56)

Um Homem, Uma Mensagem, Um Mundo Transformado

Maomé não inventou apenas uma religião. Ele criou uma nova civilização — jurídica, artística, científica e militar — que, no seu apogeu, ia de Córdoba a Samarcanda. Hoje, mais de 1,9 mil milhões de pessoas (quase 25 % da humanidade) seguem a fé que ele trouxe.

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