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Período Republicano

A Luta de Todos Contra Todos

Publicado em 22 de junho de 2025

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A Luta de Todos Contra Todos

A expressão “a luta de todos contra todos” ecoa desde o século XVII, quando o filósofo inglês Thomas Hobbes descreveu o bellum omnium contra omnes — o estado de natureza em que o homem é lobo do homem (homo homini lupus). Sem um poder soberano forte, a vida seria “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. No Brasil, essa ideia não é mera abstração filosófica. Ela se manifesta de forma concreta ao longo dos séculos, desde as disputas por terras nas capitanias hereditárias até as disputas por recursos públicos na República contemporânea.

No site Canal Fez História, exploramos como esse conflito permanente moldou civilizações antigas e a formação do nosso país. Hoje, vamos mergulhar profundamente nesse tema, conectando o pensamento hobbesiano à realidade brasileira, desde as civilizações mesoamericanas e o Antigo Egito até os presidentes da República e as polarizações atuais. Prepare-se para uma viagem de mais de quatro milênios de história humana vista pela lente da competição implacável por poder, recursos e sobrevivência.

O Conceito Hobbesiano e Suas Raízes na História Antiga

Thomas Hobbes publicou Leviatã em 1651, logo após a Guerra Civil Inglesa. Para ele, sem um Estado forte, os homens, movidos pelo medo da morte e pelo desejo de poder, entrariam em conflito constante. Mas essa “luta de todos contra todos” não nasceu no século XVII. Ela está presente nas primeiras civilizações que estudamos no Canal Fez História.

Na Sumeria c. 4500-1900 a.C., as cidades-estado como Uruk e Ur competiam ferozmente por água e terras férteis entre os rios Tigre e Eufrates. Os sumérios construíram zigurates e muralhas não só para honrar deuses, mas para se proteger de vizinhos ambiciosos. A mesma dinâmica aparece na Babilônia c. 1894-539 a.C., onde o Código de Hamurabi tentava impor ordem em meio a uma sociedade onde o forte explorava o fraco.

No Antigo Egito – Antigo Império c. 2686-2181 a.C., os faraós como Quéops centralizavam poder para evitar o caos. As pirâmides não eram apenas túmulos; eram símbolos de unidade contra as forças centrífugas das províncias. Quando o poder central enfraquecia, como no Primeiro Período Intermediário, voltava a “luta de todos contra todos”: nomarcas rivais, fome e invasões.

Essa competição não se limitava ao Oriente Próximo. Na Civilização do Vale do Indo c. 3300-1300 a.C., cidades planejadas como Harapa e Mohenjo-Daro sugerem uma ordem relativa, mas seu declínio pode estar ligado a disputas por recursos hídricos e migrações. Já na Civilização Minoica c. 2700-1450 a.C. e na Civilização Micênica c. 1600-1100 a.C., o comércio e a guerra andavam juntos. Os micênicos, famosos pelos poemas homéricos, viviam em palácios fortificados, prontos para saquear ou serem saqueados.

“O homem é lobo do homem.”
— Thomas Hobbes, inspirado nas guerras de seu tempo, mas ecoando conflitos milenares.

Na América, antes da chegada europeia, o padrão se repetia. A Cultura Maia c. 250-900 viu cidades-estado como Tikal e Calakmul entrarem em guerras constantes por tributo, terras e prestígio. Colapsos ambientais agravavam a luta. Os Astecas c. 1345-1521 expandiram seu império através da “Guerra Florida”, capturando prisioneiros para sacrifícios que legitimavam o poder. Os Incas c. 1438-1533, por sua vez, construíram um Estado centralizado, mas enfrentavam resistências constantes nas periferias.

Esses exemplos mostram que a “luta de todos contra todos” surge quando o poder comum enfraquece. Hobbes estava certo: sem Leviatã, volta o caos.

Da Grécia Antiga ao Feudalismo Europeu: Democracia, Impérios e Caos

Na Grécia Antiga c. 800-146 a.C. — ou a Grécia Antiga e o Nascimento da Democracia —, Atenas experimentou uma forma de ordem coletiva. No entanto, a democracia ateniense convivia com guerras contra Esparta e rivalidades internas. A Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) foi um exemplo clássico de como ambições levam ao colapso mútuo.

Alexandre, o Grande, mudou o jogo. Em Alexandre, o Grande e o Período Helenista, ele unificou temporariamente o mundo conhecido, mas após sua morte, os diádocos mergulharam em décadas de “luta de todos contra todos” por pedaços do império.

Roma tentou resolver isso com instituições fortes. Da República Romana 509-27 a.C. ao Império Romano 27 a.C.-476 d.C., o Senado e depois os imperadores impunham ordem. Mas crises como as Guerras Púnicas contra Cartago (veja a Era Cartaginesa c. 800-146 a.C.) ou as migrações bárbaras mostraram a fragilidade. Quando o centro enfraqueceu, tribos germânicas e hunos aceleraram a queda do Ocidente.

Na Idade Média, o Feudalismo e as Conquistas Normandas c. 900 representou uma resposta descentralizada à luta. Senhores locais protegiam vassalos em troca de serviço militar. As Cruzadas 1096-1291 canalizaram violências internas para fora, mas também geraram novas rivalidades. A Peste Negra 1347-1351 agravou o caos: fome, revoltas camponesas e questionamentos à ordem feudal.

O Império Franco e Carlos Magno c. 800-843 tentou recriar um Leviatã cristão, mas após sua morte, o império se fragmentou novamente. Na Ásia, o Império Mongol 1206-1368 de Gengis Khan impôs ordem brutal sobre vastos territórios, mas colapsou em lutas sucessórias.

O Renascimento, as Reformas e a Expansão Europeia

O Renascimento c. 1300-1600 e a Reforma Protestante e Contrarreforma 1517 coincidiram com o retorno de ideias clássicas e conflitos religiosos intensos. Martinho Lutero e João Calvino desafiaram a autoridade papal, levando a guerras de religião que pareciam confirmar Hobbes antes mesmo de ele escrever.

As Explorações Portuguesas e o Advento do Tráfico de Escravos no Atlântico c. 1400-1800 e as Explorações Europeias e os Impérios Mercantis c. 1400-1700 abriram novos teatros para a luta. A Descoberta das Américas e Mercantilismo c. 1492-1750 transformou o mundo. Portugal e Espanha competiram, depois entraram Holanda, Inglaterra e França.

No Brasil colonial, a Construção da História começa com a Viagem de Cabral e a Invasão Holandesa no Brasil. As Capitanias Hereditárias 1534 foram um experimento quase hobbesiano: donatários recebiam poderes quase absolutos, mas muitos fracassaram diante de indígenas, franceses e piratas. O Governo Geral de 1549 foi uma tentativa de impor ordem central.

O Brasil Holandês e a União Ibérica 1580-1640 intensificaram conflitos. A Restauração Portuguesa e a Revolução Pernambucana mostram brasileiros lutando contra holandeses e depois contra o domínio espanhol restaurado. O açúcar (O Açúcar) e o ouro geraram riqueza, mas também desigualdade e revoltas.

Leia mais sobre os Escravos e os Índios para entender como a exploração criou camadas de conflito social que persistem até hoje.

Iluminismo, Revoluções e o Nascimento das Nações Modernas

O Iluminismo c. 1715-1789 trouxe ideias de John Locke, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, que propunha o pacto social como antídoto ao estado de natureza hobbesiano. Mas a prática foi diferente.

A Revolução Francesa 1789-1799 começou com ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, mas degenerou no Terror e nas Guerras Revolucionárias e Napoleônicas. Napoleão Bonaparte tentou ser o novo Leviatã, mas suas ambições levaram à ruína.

Na América, a Revolução Americana 1775-1783 e a Guerra Civil Norte-Americana 1861-1865 mostraram como ideais republicanos convivem com lutas internas profundas. Abraham Lincoln tentou preservar a União contra a secessão.

Na América Latina, as Guerras de Independência c. 1808-1825, lideradas por Simón Bolívar e outros, substituíram o domínio espanhol por repúblicas instáveis, frequentemente mergulhadas em guerras civis — mais uma versão da luta de todos contra todos.

No Brasil, a chegada da Família Real em 1808 (a Vinda da Família Real Portuguesa) abriu caminho para a Independência. Mas o Período Regencial foi marcado por revoltas como a Confederação do Equador e a Revolução Farroupilha (implícita em contextos regionais). A Constituição de 1824 tentou impor ordem, mas o Segundo Reinado de Dom Pedro II equilibrou forças regionais.

A República Brasileira: Do Café com Leite à Ditadura Militar

Proclamada em 15 de Novembro de 1889, a República brasileira nasceu sob o signo da luta. A Primeira República ou República do Café com Leite foi dominada por oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. Presidentes como Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves e Afonso Pena representavam o “café com leite”, onde interesses regionais prevaleciam sobre o projeto nacional.

A Guerra de Canudos e a Revolta da Vacina mostraram o abismo entre elites e povo. A Revolução de 1930 levou Getúlio Vargas ao poder, que instaurou o Estado Novo — uma tentativa autoritária de Leviatã brasileiro.

Após 1945, o país oscilou entre democracia e autoritarismo. Juscelino Kubitschek prometeu “50 anos em 5”, mas deixou dívidas. A Ditadura Militar, iniciada em 1964 com Humberto Castello Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e outros, prometia ordem contra o “caos comunista”. O Milagre Econômico trouxe crescimento, mas também dívida e censura.

A redemocratização trouxe José Sarney, Fernando Collor (e seu impeachment), Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Cada transição reabriu velhas feridas.

A página específica A Luta de Todos Contra Todos no nosso site destaca como políticas como o PSI do BNDES (2009-2014) concentraram bilhões em grandes empresas enquanto o cidadão comum pagava juros extorsivos. Isso não é novidade: lembra a socialização de perdas na República Velha ou no Estado Novo. O patrimonialismo transforma o Estado em arena onde os conectados vencem.

Era da Informação, Globalização e Polarizações Contemporâneas

Na Era da Informação e Globalização c. 1980-presente, a luta ganha novas formas. Redes sociais amplificam divisões. A Guerra Fria 1947-1991 foi substituída por conflitos híbridos, ciberataques e disputas comerciais.

No Brasil, a Constituição de 1988 prometeu cidadania plena, mas desigualdades persistem. Temas como o Brasil Não Tem Povo (em sentido crítico) e Polarizações Perversas – De Volta ao Início mostram como velhas clivagens ressurgem.

Compare com outras nações: a Independência da Índia 1947, a Descolonização Africana c. 1950-1980 ou o colapso da União Soviética. Em todos os casos, o vácuo de poder ou a captura do Estado por elites reavivam o conflito hobbesiano.

Por Que o Brasil Ainda Vive a “Luta de Todos Contra Todos”?

O patrimonialismo, o clientelismo e a falta de um projeto nacional duradouro explicam muito. Desde as Bandeiras e as Monções até as disputas por emendas parlamentares hoje, grupos competem por fatias do orçamento. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro tentou construir uma narrativa nacional, mas ela sempre foi contestada.

Hobbes diria que precisamos de um soberano forte e impessoal. Rousseau, de uma vontade geral autêntica. Na prática, o Brasil oscila entre autoritarismo e populismo, ambos incapazes de eliminar a competição predatória.

Perguntas Frequentes

O que significa exatamente “a luta de todos contra todos”?
É o conceito hobbesiano de estado de natureza sem autoridade central, onde cada um busca seu interesse por qualquer meio, levando ao caos.

O Brasil é um exemplo atual desse conceito?
Sim, na medida em que interesses corporativos, regionais e ideológicos capturam o Estado, priorizando poucos em detrimento da maioria, como analisado em A Luta de Todos Contra Todos.

Quais presidentes brasileiros tentaram impor ordem central?
Getúlio Vargas no Estado Novo, os militares após 1964 e, em certa medida, governos que priorizaram estabilização econômica.

Como as civilizações antigas lidavam com isso?
Através de impérios centralizados (Império Aquemênida, Roma, Inca) ou códigos legais, mas colapsos eram frequentes quando o centro enfraquecia.

Qual o papel da educação e da história para superar isso?
Conhecer o passado, como nos artigos sobre História Contemporânea do Brasil e civilizações mundiais, ajuda a construir consciência cívica e evitar repetições.

Construindo um Leviatã Brasileiro Legítimo

A “luta de todos contra todos” não é destino inevitável. Hobbes via o Estado como solução racional. O desafio brasileiro é criar instituições impessoais, meritocráticas e transparentes que canalizem energias competitivas para o bem comum, em vez de capturá-las por oligarquias.

Enquanto isso não acontece, continuaremos vendo ciclos de esperança e frustração. Mas estudar história — desde Sumeria até o Governo Lula, passando por os Donos do Poder — nos dá ferramentas para imaginar um futuro diferente.

Quer aprofundar? Acesse a página principal do Canal Fez História e explore todas as eras. Leia sobre o Segundo Reinado ou a Ditadura Militar para entender melhor nossos ciclos. Para conteúdo em vídeo, inscreva-se no YouTube @canalfezhistoria. Siga-nos no Instagram @canalfezhistoria e no Pinterest para imagens e infográficos históricos.

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