De 8 a 11 de novembro de 1955, o Brasil viveu um dos episódios mais surreais da sua história política. Um mineiro discreto, advogado de formação e parlamentar experiente, assumiu a Presidência da República… e foi deposto antes mesmo de completar 72 horas no cargo.
Carlos Coimbra da Luz (1894–1961) não é nome que apareça nos livros didáticos com a mesma frequência de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek ou Café Filho. Mas, durante exatamente 62 horas e 30 minutos, ele foi o 19.º presidente do Brasil — o mais curto mandato da nossa história republicana.
Quem foi Carlos Luz?
Nascido em Três Corações, Minas Gerais, a 4 de agosto de 1894 — a mesma cidade que daria ao mundo, anos depois, Pelé —, Carlos Luz formou-se advogado pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte em 1917. Militante do Partido Republicano Mineiro (PRM), elegeu-se deputado federal pela primeira vez em 1926 e construiu uma carreira longa e discreta no Congresso.
Em 1954, aos 60 anos, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Na linha sucessória da época, isso colocava-o como segundo na hierarquia para assumir a Presidência caso o titular e o vice ficassem impedidos. E foi exatamente o que aconteceu.
A Crise de 1955: O Caminho para o Palácio do Catete
Para entender como Carlos Luz chegou ao poder, é preciso voltar ao turbulento ano de 1955.
- Café Filho, vice de Vargas, assumira após o suicídio do titular em agosto de 1954.
- Em novembro de 1955, Café Filho sofreu um colapso cardíaco e foi internado.
- O vice-presidente eleito em 1955, João Goulart (Jango), ainda não havia tomado posse (tomaria apenas em janeiro de 1956).
- A Constituição de 1946 determinava: na ausência simultânea de presidente e vice, assumia o presidente da Câmara.
No dia 8 de novembro de 1955, Carlos Luz recebeu o cargo das mãos do ministro da Justiça, Prado Kelly, e instalou-se no Palácio do Catete.
Os Fatídicos Dois Dias e Meio
8 de novembro – Primeiro dia
Carlos Luz toma posse às 16h30. A imprensa registra um presidente calmo, elegante, de terno claro e gravata discreta. Ele nomeia rapidamente seu ministério, mantendo a maioria dos nomes de Café Filho, mas já dá sinais de que não será um mero “tampão”.
9 de novembro – A conspiração se arma
Dois fatos simultâneos detonam a crise:
- Carlos Luz nomeia o general Henrique Lott — ministro da Guerra de Café Filho — para o mesmo cargo. Lott aceita, mas logo percebe que Luz está alinhado com setores da UDN e da direita militar que queriam impedir a posse de JK e Jango em janeiro de 1956.
- Circulam boatos de que Luz planejava dar um golpe para “salvar o Brasil do comunismo” — o famoso “golpe preventivo” contra a posse da chapa vencedora nas urnas.
11 de novembro – O contragolpe de Lott
Às 4h da madrugada, o general Henrique Teixeira Lott, com apoio de outros oficiais legalistas, lança o chamado “Movimento de 11 de Novembro”. Tanques cercam o Palácio do Catete. Carlos Luz, o vice-presidente do Senado Nereu Ramos e alguns ministros refugiam-se no cruzador Tamandaré, ancorado na Baía de Guanabara, tentando organizar resistência.
Às 9h da manhã, o Congresso, sob pressão militar, declara o impedimento de Carlos Luz. Nereu Ramos assume a Presidência interina até a posse de Juscelino em 31 de janeiro de 1956.
Curiosidades que Você Provavelmente Não Sabia
- Carlos Luz é o único presidente brasileiro que governou de dentro de um navio de guerra (o cruzador Tamandaré).
- Ele nunca teve foto oficial de presidente — o mandato foi tão curto que não deu tempo.
- A famosa frase “O Brasil não é uma republiqueta de banana” foi dita por ele no Tamandaré, em resposta ao cerco dos legalistas.
- Após a deposição, Luz foi cassado por 10 anos, mas recuperou os direitos políticos em 1959.
Carlos Luz na Linha do Tempo dos Presidentes Brasileiros
| Ordem | Presidente | Período no cargo |
|---|---|---|
| 17 | Café Filho | 1954–1955 |
| 18 | Carlos Luz | 8–11 nov 1955 (62h30) |
| 19 | Nereu Ramos (interino) | 11 nov 1955 – 31 jan 1956 |
| 20 | Juscelino Kubitschek | 1956–1961 |
Se quiser conhecer mais detalhes sobre os antecessores e sucessores de Carlos Luz, veja os artigos completos:
Por Que o Episódio de Carlos Luz Ainda Importa?
O curto mandato de Carlos Luz foi o último ato de uma crise que começou com o suicídio de Vargas em 1954 e só terminaria com a posse de JK em 1956. Ele simboliza o quanto as Forças Armadas se sentiam “tutores da nação” na República de 1946 — papel que voltariam a exercer com força total em 1964.
Em apenas dois dias e meio, o Brasil viveu:
- Uma tentativa de golpe preventivo da direita
- Um contragolpe legalista
- Um presidente governando de um navio de guerra
- A cassação sumária de um chefe de Estado eleito indiretamente
Tudo isso menos de 10 anos antes do golpe militar de 1964.
Perguntas Frequentes
1. Carlos Luz foi eleito presidente?
Não. Ele assumiu por ser presidente da Câmara dos Deputados, conforme a Constituição de 1946.
2. Quanto tempo durou exatamente o governo Carlos Luz?
62 horas e 30 minutos — das 16h30 do dia 8 às 7h do dia 11 de novembro de 1955.
3. Ele tentou dar um golpe?
Historiadores divergem. Luz sempre negou. Mas nomeações e movimentações de tropas feitas por aliados seus indicam que havia, sim, um plano para impedir a posse de JK e Jango.
4. O que aconteceu com Carlos Luz depois?
Cassado até 1959, voltou à vida pública como deputado federal por Minas Gerais em 1962, mas faleceu em 1961, antes de tomar posse no novo mandato.
5. Existe algum documentário ou filme sobre ele?
Infelizmente não. Mas o Canal Fez História tem vídeos detalhados sobre a crise de 1955 no YouTube.
Um Presidente Esquecido, mas Decisivo
Carlos Luz não construiu Brasília, não criou a Petrobras, não fez discursos históricos que ficaram na memória coletiva. Mas, em apenas dois dias e meio, ele foi protagonista de um dos momentos mais tensos da nossa história republicana — e seu fracasso abriu caminho definitivo para a posse de Juscelino Kubitschek e o início dos “50 anos em 5”.
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