De Alagoas para o Planalto, do confisco à cassação: a meteórica trajetória do 32.º Presidente do Brasil na redemocratização

Fernando Collor de Mello é, sem dúvida, um dos personagens mais controversos da história política brasileira recente. Jovem, carismático, com discurso de modernidade e combate à corrupção, chegou ao poder em 1989 como o primeiro presidente eleito diretamente após 29 anos de ditadura militar. Menos de três anos depois, saía pela porta dos fundos, cassado pelo Congresso em meio a um dos maiores escândalos da República. Este artigo mergulha fundo nessa história – e, como sempre, convido você a continuar explorando o Canal Fez História, onde já temos biografias completas de todos os presidentes brasileiros, desde Deodoro da Fonseca até Jair Bolsonaro.

Origens: A Elite Política de Alagoas

Fernando Affonso Collor de Mello nasceu em 12 de agosto de 1949, no Rio de Janeiro, mas sua vida política sempre esteve ligada a Alagoas. Filho de Arnon de Mello – senador, governador e dono do maior grupo de comunicação do estado –, cresceu dentro do poder. O sobrenome Collor já era sinônimo de influência política e econômica no Nordeste.

Em 1979, aos 30 anos, tornou-se prefeito de Maceió indicado pelo regime militar. Em 1982 elegeu-se deputado federal e, em 1986, governador de Alagoas pelo pequeno PMB, derrotando o establishment local com um discurso agressivo contra a corrupção. Nascia ali o mito do “caçador de marajás”.

“Vou acabar com os marajás do Brasil!”
— Fernando Collor, campanha de 1986

Foi esse bordão que o projetou nacionalmente. Quem quiser entender como o Nordeste se tornou celeiro de lideranças carismáticas pode ler também sobre Luiz Inácio Lula da Silva e o fenômeno do “novo sindicalismo” nos anos 80.

A Campanha de 1989: O Brasil Queria Mudança

As eleições de 1989 foram as primeiras diretas para presidente desde 1960. O país vivia hiperinflação de quase 2.000% ao ano, descrédito total nos políticos tradicionais e uma sensação de fim de ciclo da Nova República (José Sarney, Tancredo Neves).

Collor criou o PRN (Partido da Reconstrução Nacional) praticamente do zero e apostou tudo na imagem de jovem moderno. Usava jato particular, pilotava lancha, fazia flexões de braço na TV. Contratou Duda Mendonça – o mesmo que anos depois trabalharia com Lula – e montou uma campanha profissional como nunca se vira no Brasil.

No segundo turno enfrentou Lula, então líder do PT. A campanha foi duríssima: o debate da TV Globo, a edição do “caso Miriam Cordeiro”, o medo do “comunismo” explorado ao máximo. Collor venceu com 53% dos votos válidos.

O Governo Collor (1990–1992): Choque Neoliberal e Confisco

Logo no primeiro dia de governo, 16 de março de 1990, veio o Plano Collor: bloqueio de 80% dos depósitos bancários e contas-correntes acima de Cz$ 50 mil cruzados novos (cerca de US$ 1.200 na época). O objetivo era conter a hiperinflação, mas o efeito foi devastador na economia real.

A ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello (sem parentesco), implementou uma abertura comercial radical, privatizações e demissão de milhares de funcionários públicos. O Brasil vivia o Consenso de Washington na veia.

Inflação caiu de 84% ao mês em março de 1990 para 25% em julho… mas voltou a subir em 1991. O país entrou em recessão profunda, desemprego explodiu, e o bloqueio das poupanças nunca foi devolvido integralmente.

Principais medidas do governo Collor

  • Extinção de dezenas de autarquias e empresas estatais
  • Fim do monopólio estatal em setores como telecomunicações e siderurgia
  • Demissão de mais de 360 mil servidores (os “marajás”)
  • Abertura comercial com redução média de tarifas de 32% para 14%
  • Criação do Mercosul (Tratado de Assunção, 1991)

A Queda: Dos Caras-Pintadas ao Impeachment

Tudo desmoronou em maio de 1992, quando Pedro Collor – irmão do presidente – deu entrevista à revista Veja acusando o tesoureiro da campanha, PC Farias, de comandar um esquema bilionário de corrupção dentro do Palácio do Planalto.

A CPI do PC instalada no Congresso revelou um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia compras de carros de luxo, reformas na Casa da Dinda e até um Fiat Elba como presente de aniversário. O dinheiro vinha de empresas que pagavam propina para obter favores do governo.

Os estudantes saíram às ruas. Nasceram os “Caras-Pintadas”. Em 2 de setembro de 1992, mais de 500 mil pessoas pediram o impeachment na Avenida Paulista.

No dia 29 de setembro, a Câmara autorizou a abertura do processo por 441 a 38. Em 29 de dezembro, horas antes do julgamento no Senado, Collor renunciou. A renúncia foi recusada, e o Senado cassou seus direitos políticos por 8 anos (1992–2000).

“O Brasil não aguenta mais esperar.”
— Slogan dos Caras-Pintadas, 1992

O vice Itamar Franco (Itamar Franco) assumiu e, com Fernando Henrique Cardoso na Fazenda, lançou o Plano Real que finalmente domou a inflação.

O Pós-Presidência: Ressurgimento e Cassação no Senado (2006-2014)

Em 2006, Collor voltou à política como senador por Alagoas – eleito com 44% dos votos. Em 2014 tentou o governo do estado e perdeu por pouco. Em 2022 foi reeleito senador com ampla votação.

Em 2023, já com 73 anos, é um dos senadores mais experientes do Congresso, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

Legado de Fernando Collor

Foi o primeiro presidente latino-americano a sofrer impeachment por corrupção. Abriu caminho para a onda neoliberal que marcaria os anos 90 em toda a América Latina (Fernando Henrique Cardoso, Menem na Argentina, Fujimori no Peru).

Apesar do fracasso econômico e moral, medidas como abertura comercial e privatizações seriam mantidas e aprofundadas nos governos seguintes.

Perguntas Frequentes

Qual foi a inflação quando Collor assumiu?

Cerca de 1.764% ao ano em 1989, chegando a 84% ao mês em março de 1990.

O que aconteceu com o dinheiro confiscado no Plano Collor?

O governo devolveu com correção, mas muitos brasileiros nunca recuperaram o valor real devido à inflação posterior e ao longo prazo de devolução.

Collor foi preso?

Não. Nunca foi condenado criminalmente pelo esquema PC Farias. Em 2014 o STF absolveu-o por falta de provas materiais.

Qual a relação dele com a Operação Lava Jato?

Foi citado em delações, mas nunca denunciado formalmente.

Ele pode ser candidato a presidente novamente?

Sim. Os direitos políticos foram devolvidos em 2000. Teoricamente poderia ser candidato em 2026.

Um Capítulo que o Brasil Não Esquece

Fernando Collor de Mello é o exemplo perfeito de como o carisma pode levar alguém ao poder – e de como a corrupção pode derrubá-lo em tempo recorde. Sua história se entrelaça com a redemocratização, o fim da hiperinflação, a abertura econômica e o despertar cívico da juventude brasileira.

Se você quer entender melhor o Brasil contemporâneo, não deixe de explorar nossa seção completa sobre História Contemporânea do Brasil, onde você encontrará biografias detalhadas de todos os presidentes, análises dos planos econômicos e dos grandes movimentos sociais.

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