De oligarca maranhense a presidente da República: a trajetória de um dos políticos mais longevos e controversos da história brasileira contemporânea

José Sarney é uma figura que simplesmente não cabe em rótulos fáceis. Poeta, romancista, imortal da Academia Brasileira de Letras, senador por cinco mandatos, governador, vice-presidente e, sobretudo, o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar. Governou o Brasil entre 1985 e 1990 num dos períodos mais turbulentos da nossa história recente: hiperinflação galopante, Plano Cruzado, Constituinte de 1988, morte de Tancredo Neves, redemocratização inacabada e o nascimento da Nova República.

Este artigo é uma viagem completa pela vida, obra e legado de José Ribamar Ferreira de Araújo Costa – o nome de batismo daquele que o Brasil inteiro aprenderia a chamar apenas de Sarney.

Origens: São Luís do Maranhão e a oligarquia tradicional

Nascido em 24 de abril de 1930 em Pinheiro, Maranhão, Sarney veio ao mundo no coração de uma das mais tradicionais famílias políticas do Nordeste. Seu pai, Sarney de Araújo Costa, era desembargador e latifundiário. Desde cedo, o jovem Ribamar frequentou os salões da elite maranhense, ambiente que moldaria para sempre sua visão de mundo.

Formado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, ainda nos anos 1950 começou a carreira política pela UDN – o partido da direita conservadora que apoiou o golpe de 1964. Foi deputado federal aos 26 anos, governador do Maranhão aos 33 e, em 1965, um dos poucos udenistas que migraram para a ARENA, o partido do regime militar.

Quer saber mais sobre as oligarquias que dominaram o Brasil República Velha e continuaram influentes na ditadura? Leia o artigo completo sobre [Os Donos do Poder].

A ascensão meteórica e o apoio inicial à ditadura

Em 1970, já como senador, Sarney foi eleito presidente nacional da ARENA. Era o homem-forte do regime no Congresso. Defendeu o AI-5, elogiou Costa e Silva e parecia destinado a ser um dos pilares do sistema bipartidário criado pelos militares.

Mas a política, como ele próprio gosta de dizer, é a arte do possível.

Com a abertura lenta, gradual e segura anunciada por Geisel (leia mais em [Ernesto Geisel]), Sarney percebeu o vento mudando de direção. Em 1979, com a extinção do bipartidarismo, ajudou a fundar o PDS – herdeiro da ARENA – mas já flertava com a oposição moderada.

A grande virada: a aliança com Tancredo Neves e a campanha das Diretas Já

O momento decisivo aconteceu em 1984. O regime vivia seu ocaso. As [Diretas Já] haviam mobilizado milhões (embora o artigo ainda não exista no site, o movimento é central para entender o período). A emenda Dante de Oliveira foi derrotada, mas o Colégio Eleitoral tornou-se inevitável.

Tancredo Neves, ex-primeiro-ministro de João Goulart e símbolo da oposição moderada, precisava de um vice que garantisse votos do PDS dissidente. Sarney, então presidente do partido, rompeu com Paulo Maluf e aceitou ser o vice na chapa da Aliança Democrática.

A vitória no Colégio Eleitoral foi esmagadora: 480 a 180. O Brasil celebrava o fim do ciclo militar.

Mas o destino reservava uma tragédia: na véspera da posse, Tancredo Neves foi internado. Sarney assumiu interinamente em 15 de março de 1985 e, com a morte de Tancredo em 21 de abril, tornou-se presidente definitivo.

Acompanhe a cronologia completa da crise de sucessão em [Tancredo Neves].

O governo Sarney (1985-1990): euforia, planos econômicos e hiperinflação

O Plano Cruzado: a maior lua de mel da história republicana

Lançado em 28 de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado congelou preços, criou uma nova moeda (o cruzado), extinguiu a correção monetária e tabelou salários. Resultado? A inflação caiu de 400% ao ano para quase zero em poucos meses.

Os brasileiros invadiram supermercados, compraram geladeiras, carros, eletrodomésticos. Sarney tinha aprovação superior a 80%. Os “fiscais do Sarney” – cidadãos comuns que denunciavam aumentos abusivos – viraram símbolo da época.

Mas o congelamento artificial gerou desabastecimento. O “boi de piranha” (açougues escondendo carne) entrou para o folclore. Em novembro de 1986, nas eleições para governadores e Constituinte, o PMDB venceu em 22 dos 23 estados. Parecia imbatível.

O fracasso dos planos subsequentes e a hiperinflação

  • Cruzado II (novembro de 1986) – descongelamento disfarçado
  • Plano Bresser (1987)
  • Plano Verão (1989)
  • A inflação voltou com força brutal: 1.764% em 1989, beirando a hiperinflação.

O Brasil terminou o governo Sarney com 84% de inflação… mensal.

A Constituinte de 1987-1988: a “Constituição Cidadã”

Apesar da crise econômica, o maior legado de Sarney foi permitir que a Assembleia Nacional Constituinte trabalhasse com liberdade total. Ulysses Guimarães presidiu os trabalhos. Nascia a [Constituição de 1988], chamada por Ulysses de “Constituição Cidadã”.

Direitos sociais ampliados, voto aos 16 anos, unicidade sindical, estabilidade no emprego, mandato de 5 anos para Sarney (a famosa “emenda Dante de Oliveira” que virou emenda do mandato).

Corrupção, feriados e a imagem pública em xeque

O governo foi marcado por denúncias:

  • Escândalo da Mandioca (desvio de verbas do Proálcool)
  • Caso da Legião Brasileira de Assistência (LBA) com a primeira-dama Marly Sarney
  • Feriados prolongados para “esconder” a inflação nas estatísticas mensais

A frase “Esse país não tem jeito” entrou para o imaginário popular.

Literatura e cultura: o Sarney escritor

Poucos presidentes brasileiros escreveram tanto. Sarney é autor de mais de 40 livros. Obras como:

  • O Dono do Mar (romance premiado)
  • Sarâmara (contos)
  • Brejal dos Guajas (memórias)

É membro da Academia Brasileira de Letras desde 1980, ocupando a cadeira 38.

A longevidade política: do século XX ao XXI

Após deixar a presidência em 1990, Sarney:

  • Eleito senador pelo Amapá (1990, 1998, 2006, 2014)
  • Presidente do Senado por três mandatos (1997, 2003-2005, 2009-2011)
  • Réu em processos no STF (Inquérito dos atos secretos, Mensalão do Amapá, Lava Jato – todos arquivados ou prescritos)

Aos 95 anos (em 2025), continua sendo uma das figuras mais influentes do Congresso, mesmo afastado por problemas de saúde.

Legado: herói da redemocratização ou símbolo do atraso?

Depende de quem responde.

Para uns, foi o homem que segurou o Brasil no colo numa transição delicada, evitou rupturas e entregou uma Constituição avançada.

Para outros, representa tudo o que há de pior na política brasileira: coronelismo, fisiologismo, perpetuação no poder, clientelismo.

A verdade, como sempre, está no meio – e talvez nem aí.

Perguntas Frequentes sobre José Sarney

1. José Sarney foi eleito diretamente pelo povo?

Não. Foi vice de Tancredo Neves e assumiu com a morte deste. A primeira eleição presidencial direta após o regime militar foi em 1989 (Collor x Lula).

2. Qual foi o maior erro do governo Sarney?

A maioria dos economistas aponta o Plano Cruzado sem medidas de controle fiscal, que levou ao descontrole inflacionário posterior.

3. Sarney apoiou o golpe de 1964?

Sim. Foi um dos líderes da ARENA e defendeu o AI-5. Só rompeu com os militares na fase final da abertura.

4. Por que ele foi senador pelo Amapá e não pelo Maranhão?

Após deixar a presidência, construiu base política no recém-criado estado do Amapá (1988), onde sua família tinha fortes interesses econômicos e políticos.

5. José Sarney ainda exerce algum cargo público em 2025?

Não. Seu último mandato como senador terminou em fevereiro de 2023. Hoje vive recluso em Brasília e São Luís, com sérios problemas de saúde.

Um homem que atravessou eras

José Sarney é o único brasileiro vivo que foi governador antes do golpe de 1964, senador durante toda a ditadura e presidente da República na redemocratização. É, ao mesmo tempo, produto e protagonista de quase um século de história política brasileira.

Amado por uns, odiado por outros, ninguém pode negar: Sarney é parte indissociável do Brasil que temos.

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  • Veja a linha do tempo completa dos presidentes em [Deodoro da Fonseca], [Getúlio Vargas], [Juscelino Kubitschek], [João Figueiredo] e todos os outros.
  • Entenda o contexto da redemocratização em [Tancredo Neves], [João Figueiredo] e [A Constituição de 1988].
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Até o próximo artigo!