De médico mineiro a símbolo da redemocratização – a história de um líder que uniu um país dividido e deixou um legado eterno, mesmo sem tomar posse
Tancredo de Almeida Neves (1910-1985) é, sem dúvida, uma das figuras mais emocionantes da história contemporânea brasileira. Ele foi o último presidente eleito indiretamente, o primeiro civil após 21 anos de ditadura militar e, sobretudo, o homem que carregou nos ombros a esperança de milhões de brasileiros no fim do regime autoritário. Sua morte trágica, exatamente na véspera da posse, transformou-o em mito – e em pergunta que ainda ronda os corredores da política: “E se Tancredo tivesse vivido?”
Neste artigo gigantesco, vamos mergulhar fundo na vida, na carreira e no legado desse mineiro de São João del-Rei que conseguiu o impossível: derrotar o regime militar dentro das próprias regras que ele criou.
Origens: São João del-Rei e a política como vocação de família
Tancredo nasceu em 4 de março de 1910, em São João del-Rei, cidade histórica de Minas Gerais que já havia dado ao Brasil figuras como Tiradentes e Barbosa Lima. A família Neves era tradicionalmente política: seu avô, seu pai e seus tios já haviam ocupado cargos públicos. Desde cedo, o menino Tancredo acompanhava as conversas políticas na varanda da casa grande.
Formado em Direito pela Universidade de Minas Gerais em 1932, ele começou a carreira como promotor público. Mas a política falou mais alto. Em 1935, já era vereador em sua cidade natal. Em 1950, elegeu-se deputado federal pelo PSD mineiro e nunca mais saiu da cena nacional.
“A política é a mais nobre das atividades humanas quando exercida com honestidade e espírito público.”
– Tancredo Neves
Ascensão meteórica na Era Vargas e no pós-guerra
Durante o Estado Novo, Tancredo foi um dos poucos políticos que soube navegar entre a oposição democrática e a lealdade ao regime sem perder a composta. Em 1951, tornou-se Ministro da Justiça de Getúlio Vargas – cargo que ocupou até 1954. Foi dele a frase histórica ao renunciar quando da crise final de Vargas:
“Não posso continuar num governo que se sustenta sobre cadáveres.”
Após a morte de Getúlio (leia mais sobre esse período em Getulio Vargas), Tancredo alinhou-se a Juscelino Kubitschek, seu grande amigo e conterrâneo. Foi Secretário de Finanças de Minas e, depois, Ministro da Fazenda no governo JK (1956-1958). Participou ativamente da construção de Brasília e da política dos “50 anos em 5”. Confira mais detalhes no artigo Juscelino Kubitschek.
O golpe de 1964 e os anos de resistência silenciosa
Com o golpe militar de 1964, Tancredo perdeu o mandato de deputado federal pelo MDB mineiro. Cassado, afastou-se da vida pública, mas nunca do jogo político. Trabalhou como advogado e, nos bastidores, manteve contato com líderes civis e até com setores moderados das Forças Armadas.
Foi nessa fase que começou a articular a ideia de uma transição “lenta, gradual e segura” – frase que seria eternizada anos depois por Golbery do Couto e Silva, mas que Tancredo já defendia desde os anos 70.
A campanha das Diretas Já e a vitória no Colégio Eleitoral
Em 1984, o Brasil vivia a maior mobilização popular desde a redemocratização. As Diretas Já encheram praças de amarelo. A emenda Dante de Oliveira foi derrotada, mas o regime estava enfraquecido.
Tancredo percebeu que a única saída possível era dentro do sistema: disputar o Colégio Eleitoral criado pela ditadura. Fundou, com Ulysses Guimarães, José Sarney, Aureliano Chaves e outros, a Aliança Democrática – uma frente que uniu o PMDB e a dissidência do PDS (o antigo ARENA).
A campanha foi épica. Tancredo percorreu o Brasil inteiro prometendo:
- Anistia ampla, geral e irrestrita
- Assembleia Nacional Constituinte
- Fim da censura
- Eleições diretas em 1988
Em 15 de janeiro de 1985, no Colégio Eleitoral, Tancredo derrotou Paulo Maluf por 480 a 180. O Brasil explodiu em festa. Parecia o fim de uma era.
A trágica noite de 14 de março de 1985
Na véspera da posse, Tancredo sentiu fortes dores abdominais. Internado às pressas no Hospital de Base de Brasília, foi diagnosticado com diverticulite aguda. Transferido para o Instituto do Coração em São Paulo, passou por sete cirurgias em 38 dias.
O país acompanhava em tempo real, com missas, vigílias e comoção nacional. Ulysses Guimarães assumiu interinamente. José Sarney, vice, tornou-se presidente em exercício.
Tancredo Neves morreu em 21 de abril de 1985, aos 75 anos. O Brasil chorou como raramente chorou por um político.
Legado: o que Tancredo representou (e ainda representa)
- A transição negociada – Tancredo provou que era possível derrotar uma ditadura sem derramamento de sangue.
- A Nova República – Mesmo sem tomar posse, seu nome batiza o período iniciado em 1985.
- A Constituição de 1988 – O compromisso com a Constituinte foi cumprido por Ulysses e pelo Congresso.
- A política como arte do possível – Tancredo era o mestre das costuras, das conversas nos bastidores, do café com prosa.
Tancredo e os presidentes que vieram depois
- José Sarney (Jose Sarney) – seu vice, que assumiu o posto
- Fernando Collor (Fernando Collor) – primeiro presidente eleito diretamente
- Itamar Franco (Itamar Franco) – mineiro como Tancredo, estabilizou o Real
- Fernando Henrique Cardoso (Fernando Henrique Cardoso)
- Lula (Luiz Inacio Lula da Silva)
- Dilma, Temer, Bolsonaro… todos, de alguma forma, são filhos (ou netos) da Nova República que Tancredo ajudou a parir.
Curiosidades que talvez você não saiba
- Tancredo falava cinco idiomas: português, francês, inglês, espanhol e latim.
- Era devoto de Nossa Senhora Aparecida e carregava sempre um terço no bolso.
- Seu neto, Aécio Neves, quase chegou à Presidência em 2014.
- A frase “Não vamos deixar que nos roubem a esperança” foi dita por ele em 1984 e virou lema das Diretas.
- O Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, chama-se oficialmente Aeroporto Internacional Tancredo Neves.
Perguntas Frequentes sobre Tancredo Neves
1. Tancredo Neves foi presidente do Brasil?
Tecnicamente, não tomou posse. Morreu na véspera. José Sarney é considerado o 31.º presidente.
2. Quem teria sido o vice de Tancredo se ele tivesse vivido?
José Sarney continuaria sendo o vice.
3. Tancredo era de esquerda ou de direita?
Era um liberal-conservador, centro-direita moderado. Defendia economia de mercado com forte intervenção estatal e direitos sociais.
4. Por que ele aceitou disputar no Colégio Eleitoral e não insistiu só nas Diretas?
Porque sabia que as Diretas não passariam no Congresso dominado pelo regime. Escolheu o caminho realista – e venceu.
5. Existe alguma teoria da conspiração sobre sua morte?
Sim, muitas. A mais famosa diz que ele teria sido envenenado. Nunca houve prova. A causa oficial foi infecção generalizada pós-cirúrgica.
6. Qual foi o maior discurso de Tancredo?
O discurso da vitória no Colégio Eleitoral, em 15/01/1985, conhecido como “Discurso da Esperança”.
O Brasil que Tancredo sonhou ainda está em construção
Quarenta anos depois, o Brasil ainda busca a conciliação que Tancredo representava. Num país polarizado, sua memória nos lembra que a política pode – e deve – ser exercida com civilidade, diálogo e grandeza.
Se você gostou deste mergulho na vida de um dos maiores brasileiros de todos os tempos, não deixe de explorar os outros presidentes da nossa série:
- Deodoro da Fonseca – o primeiro
- Getulio Vargas – o gigante
- Juscelino Kubitschek – o amigo de Tancredo
- Joao Figueiredo – o último militar
- Jose Sarney – quem efetivamente assumiu
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Porque entender Tancredo Neves não é só entender o passado – é entender o Brasil que ainda podemos ser.
















