De ditador implacável a artífice da abertura: a trajetória contraditória de João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985)
João Figueiredo foi o 30.º presidente do Brasil e o último dos cinco generais que governaram o país durante os 21 anos da ditadura militar iniciada em 1964. Chegou ao poder com a fama de linha-dura, chefe do SNI nos anos mais violentos do regime, mas saiu dele assinando a Lei da Anistia, permitindo o pluripartidarismo e entregando a faixa presidencial a um civil eleito indiretamente — José Sarney. Foi, talvez, o mais paradoxal de todos os presidentes militares.
Neste artigo detalhado, vamos percorrer toda a sua vida, desde a infância no Rio de Janeiro até os últimos dias em reclusão quase total, passando pelo contexto da ditadura, pela abertura política lenta e gradual, pela crise económica brutal dos anos 80 e pelo seu estilo pessoal — aquele general que chorava em público, montava a cavalo na posse e dizia frases como “prefiro o cheiro dos cavalos ao do povo”.
Juventude e Formação Militar: Um Filho da República Velha
João Baptista de Oliveira Figueiredo nasceu a 15 de janeiro de 1918, no Rio de Janeiro, então capital federal. Era filho do general Euclides Figueiredo, um dos líderes da Revolução de 1930 que derrubou Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder (leia mais em Junta Governativa Provisória de 1930 e Getúlio Vargas). Cresceu, portanto, dentro do Exército e da política.
Formou-se na Escola Militar do Realengo em 1937, fez a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e especializou-se em cavalaria e inteligência. Participou da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, na Itália, como tenente. Voltou condecorado e com a convicção de que o Brasil precisava de ordem acima de tudo.
A Escalada no Regime Militar
- 1961-1964 — Comandante da guarda do presidente João Goulart (João Goulart)
- 1964 — Apoia o golpe militar com entusiasmo
- 1966-1969 — Chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Planalto
- 1969 — Durante a doença de Costa e Silva (Artur da Costa e Silva), integra a junta militar de 1969 (Junta Governativa Provisória de 1969)
- 1974-1978 — Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) no governo Ernesto Geisel (Ernesto Geisel)
Foi no SNI que Figueiredo ganhou a fama de “Duque da Repressão”. Sob seu comando, a máquina de inteligência funcionou a todo vapor: DOI-CODI, Operação Condor, desaparecimentos, tortura. Mas também foi nesse período que Geisel começou a distensão e escolheu Figueiredo como sucessor exatamente porque precisava de alguém “da casa” que pudesse controlar os radicais da linha-dura.
A Eleição Indireta e a Posse a Cavalo (1979)
Em outubro de 1978, o Colégio Eleitoral (controlado pela ARENA) elegeu João Figueiredo com 355 votos contra 226 de Euler Bentes Monteiro, candidato do MDB. A 15 de março de 1979, tomou posse montado a cavalo, desfilando pela Esplanada dos Ministérios — imagem que entrou para a história e irritou boa parte da população que já queria eleições diretas.
“Eu vim para abrir, e vou abrir. Mas quem quiser que eu abra tudo de uma vez leva porrada.”
— João Figueiredo, 1979
A Abertura Política Lenta, Gradual e Irrestrita
Apesar do discurso bruto, Figueiredo cumpriu o que prometeu — dentro dos limites que o regime permitia.
Principais medidas de abertura
- Lei da Anistia (1979) — Perdoou crimes políticos de ambos os lados. Trouxe de volta exilados como Leonel Brizola, Luiz Carlos Prestes e Miguel Arraes, mas também anistiou torturadores.
- Fim do AI-5 (31/12/1978, ainda no governo Geisel, mas executado por Figueiredo)
- Reforma partidária (1979) — Extinção do bipartidarismo ARENA/MDB. Surgem PDS, PMDB, PT, PDT, PTB.
- Eleições diretas para governadores em 1982 — Primeira grande derrota do regime: oposição vence em 10 estados, incluindo São Paulo (Franco Montoro), Rio (Brizola) e Minas (Tancredo Neves — leia sobre ele em Tancredo Neves).
- Emenda Dante de Oliveira (1984) — Proposta de eleições diretas para presidente. Derrotada por 22 votos na Câmara. Nasce o movimento Diretas Já.
A Crise Económica: O Pior Momento do Milagre Desfeito
Se politicamente Figueiredo abriu, economicamente o país afundou. Herdou a crise do segundo choque do petróleo (1979), juros internacionais altíssimos e a dívida externa explodindo.
- Inflação de 110% em 1979 → 223% em 1983 → 235% em 1985
- Recessão profunda em 1981-1983 (o “milagre económico” dos anos Médici acabou)
- Maxidesvalorizações do cruzeiro, congelamentos, planos cruzado ainda viriam depois
- Greves históricas no ABC paulista (1978-1980) com o surgimento de Lula e do PT
Saúde e Ausências: O Presidente Fantasma
Em setembro de 1981, Figueiredo sofreu um infarto. Passou 42 dias afastado. Voltou mais fraco e com problemas cardíacos graves. Nos últimos dois anos de mandato, aparecia pouco em público. O Brasil era governado muitas vezes pelo vice Aureliano Chaves ou pelo ministro Leitão de Abreu.
O Fim do Regime: Tancredo, Sarney e a Nova República
Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo Neves (PMDB) e José Sarney (ex-PDS) como presidente e vice. Figueiredo recusou-se a passar a faixa presidencial. A 15 de março de 1985, entregou o cargo a Sarney num quartel, sem cerimónia, dizendo que “estava de saco cheio”.
Morreu Tancredo Neves antes de tomar posse. Sarney tornou-se o primeiro presidente civil após 21 anos.
Últimos Anos e Legado
Figueiredo afastou-se completamente da vida pública. Morou numa casa simples em São Conrado, no Rio, recusava entrevistas e vivia praticamente recluso. Faleceu a 24 de dezembro de 1999, aos 81 anos, de insuficiência renal e cardíaca.
Hoje o seu legado é controverso:
- Para alguns, foi o “abridor” que evitou uma guerra civil
- Para outros, foi o responsável por manter a repressão até o último minuto e por entregar um país em frangalhos económicos
Perguntas Frequentes sobre João Figueiredo
Figueiredo foi linha-dura ou liberal?
Foi os dois ao mesmo tempo. Como chefe do SNI, linha-duríssima. Como presidente, conduziu a abertura, mesmo sob pressão dos radicais.
Por que ele montou a cavalo na posse?
Era um apaixonado por cavalos (criava cavalos mangalarga marchador). Queria mostrar força e tradição militar.
Figueiredo chorou em público?
Sim. Chorou na posse do governador do Rio (Brizola), chorou ao entregar o cargo a Sarney, chorou em várias entrevistas. Era emocionalmente instável.
Ele foi o responsável pela Lei Áurea de 1985?
Não. A Lei da Anistia foi de 1979. A redemocratização foi um processo coletivo, com pressão popular enorme (Diretas Já).
Figueiredo sofreu atentado?
Sim. Em 30 de abril de 1981, no Riocentro, uma bomba explodiu no colo de um sargento do Exército que levava o artefato para explodir no show do 1.º de Maio. A linha-dura queria desestabilizar a abertura. O caso foi abafado.
O General que Fechou a Porta da Ditadura
João Figueiredo não foi um democrata convicto. Foi um militar pragmático que percebeu que o regime estava insustentável. Abriu o suficiente para evitar um colapso violento, mas nunca abriu mão do controle total até o último dia. Morreu odiando a política e dizendo que “o povo não presta”. Paradoxalmente, foi exatamente ele quem permitiu que esse mesmo povo voltasse a escolher seus governantes.
Se quiser aprofundar mais na história da ditadura militar brasileira, recomendo os artigos sobre os outros presidentes do período:
- Ernesto Geisel – o criador da distensão
- Emílio Garrastazu Médici – os anos de chumbo
- Artur da Costa e Silva – o AI-5
- Humberto Castello Branco – o primeiro
- José Sarney – o civil que recebeu a faixa
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